domingo, 15 de fevereiro de 2009

«A GLÓRIA»

A GLÓRIA

Alexandre Magariños Cervantes Tradução de Fernando Pessoa

Avante!... sempre avante!... nada importa Que, rasgando o dossel do céu ingente Qual flamígera nuvem, véu ardente Ameace o universo devorar; Avante!... sempre avante!... nada importa Que zumba o furacão, e em fero embate O raio tremebundo se desate, E em seus fundos abismos ruja o mar!
Não importa que em louco torvelinho Se despenhe tremenda a catarata, E cubra com o seu lençol de prata O plaino e o bosque até ao seu confim.
Sob o pé do viageiro audacioso Não importa que a terra trema ou ceda, Que não encontre rasto nem vereda Que da viagem o conduza ao fim.
E avante seguirá, e sempre avante! Cruzando sempre com crescentes brios Selvas, desertos, páramos e rios, Que absortos deixam a alma e o coração. O sol a prumo lançará seus raios Mas vão será que ao viajor assaltem Que incendeiem o ar, e na erva saltem Suas línguas de fogo em rebelião.
Ele impassível cruzará os braços, E ainda que um instante o aterre o fogo, O seu olhar altivo e firme logo No espaçoso horizonte cravará. E entre nuvens de cinzas escaldantes Pisando a terra que inda ardendo acha, Ser-lhe-á o incêndio gloriosa facha E atrás das chamas para diante irá.
Avante sempre!... Fétidas lagoas, Negros vapores que só morte exalam, Vampiros que com sangue se regalam, Insetos vis de peçonhento fel, Serpentes que anunciam-se ferindo, Magros tigres da selva nos horrores, E que da lua aos trêmulos fulgores Rugindo se aproximam em tropel;
Bárbara tribo que se oculta infida E ao cristão vingativa morto deixa Com a veloz envenenada flecha Que silva, fere, passa e não se vê: Nada amedronta nem detém o forte Varão no seu caminho agro e divino;
Pode prostrá-lo ali o seu destino... Mas não forçá-lo a desviar o pé!
Um impulso secreto, um misterioso Instinto que seus passos firme rege, O arrebata, o impele e o dirige Para a sua missão, triste ou feliz.
E cai, e se levanta, e cai de novo, E outra vez se levanta inda mais forte, E segue sem temer para o seu norte, O peito sossegado e alta a cruz.
Talvez por prêmio do afã seu, ao grato Porto da sua ansiada esp'rança chegue, E que ao vindouro o seu nome legue Coberto de uma auréola divinal. E talvez o demônio -cujo esforço E p'ra que o gênio ou o ardor sucumba- Dê à sua ânsia prematura tumba E ao seu nome o olvido perenal.
Deste modo é a glória!... os que a perseguem A juventude imolam-lhe nas aras, Ditas, prazeres, e quimeras caras, Quanto entesoura a alma e o coração. Assim somente se fecunda e brota E se entreabre seu espinhoso lírio; Porque a glória é, ou nada, ou o martírio, É do anjo proscrito a expiação!
Enquanto o homem vive, ela lhe pede A seiva toda da existência sua, E faz que ardente sem cessar reflua Pela frágua do tempo o seu porvir - O porvir que não chega senão quando A alma quebra a escravidão terrena E se levanta à região serena Entre nuvens de rosa e de safir.
Vem a glória depois, a virgem casta, Que foge do homem quanto mais a implora, E em seu sepulcro se lhe entrega e chora Porque vivendo lhe negou o amor: A terra beija que seus restos cobre, E o puro pranto que abundoso verte Em luz e aromas e lauréis converte O lodo vil que só causava horror.

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