terça-feira, 24 de março de 2009

«NEÓFITO, NÃO HÁ MORTE» ( CANCIONEIRO )




INICIAÇÃO

FERNANDO PESSOA

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.

......

O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

......

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.

......

Neófito, não há morte.

Fernando Pessoa



«AS REVELAÇÕES DA MORTE» - PRESENÇA DE LEÃO CHESTOV



«Quem sabe?»- diz Eurípedes-«Talvez a vida seja a morte, e a morte a vida»!

Estas palavras, Platão, em um dos seus diálogos, fá-las repetir a Sócrates, o mais sábio dos homens, o criador da teoria das ideias gerais e o primeiro a considerar a nitidez e a claridade dos nossos juízos como índice da sua verdade. Em Platão, quase sempre Sócrates repete ou glosa as palavras de Eurípedes. Ninguém sabe se a vida não é a morte, se a morte não será a vida. Desde a mais remota antiguidade que os mais sábios vivem nesta enigmática ignorância; só os homens vulgares bem sabem o que seja a vida, o que seja a morte.
Como é possível, como tem sido possível que os mais sábios hesitem num ponto que não oferece dificuldades aos vulgares espíritos?E por que estarão reservadas sempre aos mais sábios as mais terríveis e crueis dificuldades? Ora, que haverá mais terrível do que não saber se se está morto ou vivo? A «Justiça» exigiria que tal conhecimento-ou tal ignorância-fosse apanágio de todos os homens. Que digo: a justiça! É a própria lógica que o exige, por ser absurdo que a uns seja dado distinguir a vida e a morte, enquanto outros de tal conhecimento são privados; com efeito, aqueles que o possuem diferem completamente dos que não o possuem, e não temos o direito de, indistintamente, a todos considerarmos da espécie humana. Só é homem quem sabe o que sejam a vida e a morte. Quem não sabe, aquele que mesmo de quando em quando, mesmo por um instante, deixa de apreender o limite que separa a vida e a morte, deixa de ser um homem e torna-se... Torna-se o quê? Que Édipo é capaz de resolver este enigma e penetrar neste mistério supremo?

´AS REVELAÇÕES DA MORTE`, LEÃO CHESTOV
Tradução de JORGE DE SENA)
MORAIS EDITORA


segunda-feira, 16 de março de 2009

«BLACK AND WHITE NIGHT» - «ROY ORBISON & FRIENDS» ( 1983 )








IMAGE ( ENTERTAINMENT ) www.image_entertainment.co
AVIVA ( INTERNATIONAL )
BARBARA ORBISON ( PRODUCTIONS BO )
ORBISON ( RECORDS )

DVD

T. BONE BURNET
BRUCE SPRINGSTEEN
TOM WAITS
BONNIE RAITT
ELVIS COSTELLO
K. D. LANG
JACKSON BROWNE
JENNIFFER WARNES
JAMES BURTON
JOHN DAVID SOUTHER
STEVEN SOLES
GLEN HARDIN
JERRY SCEFF
RON TUTT

«BAND»

ALEX ACUNA - PERCUSSION
MIKE UTLEY - KEYBOARDS
PAVEL FARKAS - VIOLIN
PETER HATCH - VIOLA
EZRA KLIGER - VIOLIN
JIMBO ROSS - VIOLIN
SID PAGE - CONCERT MASTER


IX88260BSCD / A88262









O Rapaz da Camisola Verde - Frei Hermano da Câmara


O Rapaz da Camisola Verde

Frei Hermano da Câmara

Composição: Pedro Homem de Mello

De mãos nos bolso e de olhar distante, Jeito de marinheiro ou de soldado, Era um rapaz de camisola verde, Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado. Perguntei-lhe quem era e ele me disse “Sou do monte, Senhor, e um seu criado”. Pobre rapaz de camisola verde, Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado. Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado.Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado.Porque me assaltam turvos pensamentos? Na minha frente estava um condenado. Vai-te, rapaz da camisola verde, Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado. Ouvindo-me, quedou-se o bravo moço, Indiferente à raiva do meu brado, E ali ficou de camisola verde, Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado. Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado.Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado.Soube depois ali que se perdera Esse que só eu pudera ter salvado. Ai do rapaz da camisola verde, Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado. Ai do rapaz da camisola verde, Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado. Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado.Negra madeixa ao vento, Boina maruja ao lado.






terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

«A ALBERT CAMUS» - FERNANDO MONIZ LOPES




NOVO RUMO
FERNANDO MONIZ LOPES
POESIAS
PORTO - JULHO  1966


A ALBERT CAMUS

Abriste a dura estrada no deserto
Sem te deixares seduzir pela miragem;
Por isso foi mais longo o teu caminho
Mas o rumo mais certo.
E essa enorme viagem
Que tu não terminaste
Vamos nós continuá-la
E à estrela que olhaste












quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Estátua do Torso Arcaico de Apolo, de Rilke

Torso arcaico de Apolo


Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta e brilha.

Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.

R. M. RILKE

domingo, 15 de fevereiro de 2009

«A GLÓRIA»

A GLÓRIA

Alexandre Magariños Cervantes Tradução de Fernando Pessoa

Avante!... sempre avante!... nada importa Que, rasgando o dossel do céu ingente Qual flamígera nuvem, véu ardente Ameace o universo devorar; Avante!... sempre avante!... nada importa Que zumba o furacão, e em fero embate O raio tremebundo se desate, E em seus fundos abismos ruja o mar!
Não importa que em louco torvelinho Se despenhe tremenda a catarata, E cubra com o seu lençol de prata O plaino e o bosque até ao seu confim.
Sob o pé do viageiro audacioso Não importa que a terra trema ou ceda, Que não encontre rasto nem vereda Que da viagem o conduza ao fim.
E avante seguirá, e sempre avante! Cruzando sempre com crescentes brios Selvas, desertos, páramos e rios, Que absortos deixam a alma e o coração. O sol a prumo lançará seus raios Mas vão será que ao viajor assaltem Que incendeiem o ar, e na erva saltem Suas línguas de fogo em rebelião.
Ele impassível cruzará os braços, E ainda que um instante o aterre o fogo, O seu olhar altivo e firme logo No espaçoso horizonte cravará. E entre nuvens de cinzas escaldantes Pisando a terra que inda ardendo acha, Ser-lhe-á o incêndio gloriosa facha E atrás das chamas para diante irá.
Avante sempre!... Fétidas lagoas, Negros vapores que só morte exalam, Vampiros que com sangue se regalam, Insetos vis de peçonhento fel, Serpentes que anunciam-se ferindo, Magros tigres da selva nos horrores, E que da lua aos trêmulos fulgores Rugindo se aproximam em tropel;
Bárbara tribo que se oculta infida E ao cristão vingativa morto deixa Com a veloz envenenada flecha Que silva, fere, passa e não se vê: Nada amedronta nem detém o forte Varão no seu caminho agro e divino;
Pode prostrá-lo ali o seu destino... Mas não forçá-lo a desviar o pé!
Um impulso secreto, um misterioso Instinto que seus passos firme rege, O arrebata, o impele e o dirige Para a sua missão, triste ou feliz.
E cai, e se levanta, e cai de novo, E outra vez se levanta inda mais forte, E segue sem temer para o seu norte, O peito sossegado e alta a cruz.
Talvez por prêmio do afã seu, ao grato Porto da sua ansiada esp'rança chegue, E que ao vindouro o seu nome legue Coberto de uma auréola divinal. E talvez o demônio -cujo esforço E p'ra que o gênio ou o ardor sucumba- Dê à sua ânsia prematura tumba E ao seu nome o olvido perenal.
Deste modo é a glória!... os que a perseguem A juventude imolam-lhe nas aras, Ditas, prazeres, e quimeras caras, Quanto entesoura a alma e o coração. Assim somente se fecunda e brota E se entreabre seu espinhoso lírio; Porque a glória é, ou nada, ou o martírio, É do anjo proscrito a expiação!
Enquanto o homem vive, ela lhe pede A seiva toda da existência sua, E faz que ardente sem cessar reflua Pela frágua do tempo o seu porvir - O porvir que não chega senão quando A alma quebra a escravidão terrena E se levanta à região serena Entre nuvens de rosa e de safir.
Vem a glória depois, a virgem casta, Que foge do homem quanto mais a implora, E em seu sepulcro se lhe entrega e chora Porque vivendo lhe negou o amor: A terra beija que seus restos cobre, E o puro pranto que abundoso verte Em luz e aromas e lauréis converte O lodo vil que só causava horror.