sábado, 11 de abril de 2009

A DOMINIQUE SANTOS

CONHEÇO O TEU PODER E A FOUCE DURA

Conheço o teu poder e a fouce dura
Que a tua dextra empolga assaz respeito.
Sei que abaixo do sol tudo é sujeito
A teu poder feroz, tua bravura.

De Babilónia a torre assaz segura
De teu golpe fatal sentiu o efeito.
Por ti o Ródio c'losso foi desfeito,
Sem lhe valer a desmarcada altura.

Mas eu tenho um padrão que Amor defende.
Tempo cruel, que zomba do teu corte,
Bem que a mim teu furor assaz ofende.

É o meu coração constante e forte,
Coração que do Tempo a mão não rende,
Coração que só vence a mão da Morte.

Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'










sexta-feira, 10 de abril de 2009

Para a Construção da Alma ( PARA A MADA )





Vítor Matos e Sá é o pseudónimo de Vítor Raul da Costa Matos. Nasceu em Maputo, antiga cidade de Lourenço Marques, em 1926, e faleceu em Espanha em 1975 vitimado por um acidente de viação. Licenciou-se e doutorou-se em filosofia pela Universidade de Coimbra tendo sido director do Instituto Filosófico da mesma universidade. Entre 1964 e 1970 fez vários estágios em Inglaterra. Colaborou. como poeta, na Távola Redonda. na Árvore. nos Cadernos do Meio-Dia. entre outras obras.


Para a Construção da Alma

Regressemos às flores:
Cada rosa é uma hora perdida da infância.


E temos grandes viagens interrompidas
(em cada rosa beijaremos a boca das manhãs)


E somos um dos lugares intermináveis da noite
(cada rosa é um coração do silêncio)


E adeus. Nos encontraremos, só, em nossa ausência,
como as rosas se encontram na noite.

Poema: Vitor Matos e Sá (1926-1975)






KALKI AVATARA - O CAVALO BRANCO




The Second Coming
by W. B. YEATS

Turning and turning in the widening gyre

The falcon cannot hear the falconer;

Things fall apart; the centre cannot hold;

Mere anarchy is loosed upon the world,

The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere

The ceremony of innocence is drowned;

The best lack all conviction, while the worst

Are full of passionate intensity.



Surely some revelation is at hand;

Surely the Second Coming is at hand.

The Second Coming! Hardly are those words out

When a vast image out of
Spiritus Mundi

Troubles my sight: somewhere in sands of the desert

A shape with lion body and the head of a man,

A gaze blank and pitiless as the sun,

Is moving its slow thighs, while all about it

Reel shadows of the indignant desert birds.

The darkness drops again; but now I know

That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,

And what rough beast, its hour come round at last,

Slouches towards Bethlehem to be born?
 
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Por certo alguma revelação está próxima;
por certo a Segunda Vinda está próxima.
A Segunda Vinda! Mal profiro estas palavras
quando uma vasta imagem oriunda do SPIRITUS  MUNDI
me turva a visão: algures  nas areias do deserto
uma forma com corpo de leão e cabeça de homem,
um olhar neutro e implacável como o do sol,
move os lentos flancos enquanto em seu redor
se agitam as sombras de indignados pássaros do deserto.
Cai de novo a escuridão; mas agora eu sei
que vinte séculos de um sono de pedra
foram condenados ao pesadelo junto a um berço oscilante.
Que bruta fera, tendo chegado a sua hora,
se arrasta rumo a Belém para nascer?
W I L L I A M    B U T L E R    YEATS ( Trad. de  R. K. 9

«PISAR O RISCO: ARRISCAR OU DESARRISCAR?!..»

Leonor Abramovic Clã
Tira Teima second life search


Baby you're all that I want
When you're lyin' here in my arms
I'm findin' it hard to believe
We're in heaven
And love is all that I need
And I found it there in your heart
It isn't too hard to see
We're in heaven

I've bin waitin' for so long
For something to arrive
For love to come along

Now our dreams are comin' true
Through the good times and the bad
I'll be standin' there by you

Do Livro de Cesário Verde - O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL



Do Livro de Cesário Verde

O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL


IV Horas Mortas

O tecto fundo de oxigénio, d´ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vem lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta,
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando, sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nessa massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!



quinta-feira, 2 de abril de 2009

«O CÍRCULO HERMÉTICO» - «A INDIVIDUAÇÃO»


«-Porque estou aqui?digo, dirigindo as palavras lentamente para Hermann Hesse. Porque tenho a felicidade de encontrar-me em sua casa, comendo em sua companhia, vindo de tão longe?
Hesse conserva seu semblante hierático e sem sair da luz invernal que o envolve, responde:
-Nada sucede por casualidade; aqui só se encontram os convidados certos: este é o - CÍRCULO HERMÉTICO - ...»( MIGUEL SERRANO, «O CÍRCULO HERMÉTICO» - HERMANN HESS A C.G. JUNG ).

Até hoje o operário de destinos chega a nós e diz: «Sou FÉDOR MIKHAILOVITCH DOSTOIEVSKI. Permita-me entrar e mostrar-lhe as muitas vidas que arranquei da minha vida. Seremos «um», nos porões da inquietude.»

Na PSICOLOGIA COMPLEXA, designação que CARL GUSTAV JUNG escolheu para a sua explicaçao do HOMEM na fase em o seu sistema se tornou mais teórico, DEUSES=ARQUÉTIPOS DO INCONSCIENTE=DOMINANTES PSÌQUICOS ; NO FUNDO DE TI=INCONSCIENTE COLECTIVO, separado do EU pela SOMBRA; DESPERTAM, ACORDAM=CONFRONTO COM OS ARQUÉTIPOS.---«É uma experiência inquietante...»

Les dieux des anciens ne sont pas morts,/Au fond de toi-même ils sommeillent/Et en tes rèves ils s éveillent ( Os deuses dos antigos não estão mortos,/No fundo ti mesmo estão adormecidos,/E nos teus sonhos despertam ).
A angústia não é nada de supérfluo no drama da existência. Pertence às mais profundas estruturas do eu dinâmico e é um dos factores essenciais da realização da nossa vocação de seres comprometidos no tempo. É o estímulo que nos impede de parar no meio do caminho e de nos satisfazermos com qualquer êxito obtido...
Para sair da tal duração inexorável teremos de abandonar explicações demasiado redutoras, porque dando quase só importância à causa eficiente, o que leva a tudo encarar num nexo causa-efeito ( FREUD ) é necessário, antes, afirmar com JUNG( e também ADLER ) que a perturbação psíquica é um acto positivo e criador, que a sua motivação directora...não pode ser senão a marcha para a auto-realização ( «INDIVIDUAÇÃO» )...
Quando JUNG se refere, algures na obra «DIALÉCTICA DO EU E DO INCONSCIENTE», ao problema da INDIVIDUAÇÃO, isto é, o esforço do homem para se tornar ele próprio, para se tornar o que é, ou melhor o que poderia ser, diz que é a realização da ideia vital que não pode existir em cada um de nós senão uma só vez!...


«O DEDO LEVANTADO»




O DEDO LEVANTADO

O Mestre Dyu-Dschi era-conforme nos contam-
de maneiras caladas,suave e tão modesto,
que renunciou às palavras e aos ensinamentos
porque a palavra é aparência
e evitar qualquer aparência
era sua preocupação.
Quando os alunos,os monges e noviços
apreciavam brilhar em conversas elevadas
com ditos espirituais sôbre o supremo anseio,
sôbre o porquê do mundo, ele os observava em silêncio
evitando qualquer exagero.
E quando lhe perguntavam,
vaidosos ou sérios,
sobre o significado das escrituras antigas,
sobre o nome de Buda,a iluminação,
o princípio e o fim do mundo,permanecia
em silêncio e,lentamente,apontava apenas
com o dedo levantado para o alto.
E com este sinal mudo,convincente,
foi-se tornando cada vez mais terno:
advertiu, ensinou, elogiou, castigou, indicou
de maneira tão própria o coração do mundo
e da verdade que,com os anos,
mais de um discípulo compreendeu o delicado
levantar do seu dedo
despertou e estremeceu.

in, «O CÍRCULO HERMÉTICO» - «HERMANN HESSE A C. G. JUNG»
MIGUEL SERRANO, Brasiliense )