sexta-feira, 15 de maio de 2009

«VERBO ANTIGO», Ângelo Ribeiro ( Prefácio de Leonardo Coimbra ), LIVRARIA FERREIRA, EDITORA,Lisboa,1919.










DO PREFÁCIO DE LEONARDO COIMBRA
A «VERBO ANTIGO», DE ÂNGELO RIBEIRO



( Do Prefácio de LEONARDO COIMBRA )
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Dedicatória do autor
( Ângelo Ribeiro )

A L E O N A R D O C O I M B R A

Ao filósofo-artista de «ALEGRIA, a DOR e a
GRAÇA, em que maravilhosamente se canta
a nostalgia das Regiões Mais Altas.

A. R.
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C A R T A P R E F Á C I O

Meu caro Ângelo:


(...)Nesta terra de analfabetos e homens de letras, em geral muito abaixo dos analfabetos, os que pensam com dor e profundeza, os que sentem pensando e pansam sentindo, passam ignorados ou mal conhecidos pela parte episódica da sua vida.
É assim que todo o meu labor filosófico, todo o meu trabalho emotivo, ainda há pouco, você o sabe, foram esquecidos para me emprestarem nos jornais uma fisionomia de político, com amigos políticos ( votos?! ) e tudo.
Isto tem o seu lado trágico: bem mostra como é difícil inscrever no espaço ( «objectivar», em linguagem filosófica ) a verdadeira máscara da nossa intimidade.
Já pensou, meu amigo, como somos diferentes na apreesão alheia e como na opinião que os outros de nós fazem é a mão brutal da fatalidade a deformar o modo essencial do nosso ser?
A flor da consciência é a mais trémula e hesitante, mal pode abrir as melindrosas pétalas no vendaval que a brutaliza.
A sua homenagem é a boa e doce brisa, que toma a flor, que a embala, na repetição acalentadora da sua forma.
Uma luz se acende no Espaço e uma outra responde ao seu apêlo-duas consciências em companhia na imensa solidão e bruteza do ambiente.
(...) o seu livro é uma doce evocação da mais bela e olímpica poesia dos tempos.
O pensamento grego é a atmosfera mediterrânica das almas.
Há doçuras, suavidades, visões e imagens, que só nessa atmosfera podem abrir. Sem esse pensamento, o planeta seria exílio, apenas.
O planeta-jardim, fragmento celeste, bastante alegria de ser, são flores do pensamento helénico e só hoje revivem em tal atmosfera.
Um livro é uma simples massa mecânica ou um formidável condensador de pensamento, como o explosivo que é simples peso ou, diante do reagente próprio, reservatório de energia, arremessando gestos, fragmentando, estilhaçando. Não dorme o fogo no próprio coração das pedras?
Assim os filósofos gregos: cadáveres pulverizados ou astros de sereno e imaculado fulgor.
(...)Onde o artista pousa a alma ressalta uma faísca de animação e vida, como se o nosso olhar, perfurando os olhos de um cego, lhe reacendesse as cinzas amortecidas. É o Fogo de Heraclito animando o universo e, do fundo das coisas, respondendo ao nosso amoroso chamamento.
A arte é uma obra de ressurreição; quando revivemos um artista morto, o seu espectro é ao nosso lado, convivendo e amando.
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«Os maiores poetas gregos foram os seus filósofos e os seus trágicos-uns pela luz que espalharam, outros pela sua imensa sombra de Fatalidade.
Os filósofos foram os pontos seleccionados e venturosos, onde a flor da consciência foi abrindo, os trágicos os poços, onde a sombra espavorida se foi abrigando. Mas ao alto e no fundo dêsse poço brilha o astro-consciência, atravessando a sombra e a si regressando em serena imagem reflectida.
E a vontade socrática é a força prometaica modelando uma fisionomia caroável à própria Fatalidade.
O meu caro amigo, repetindo, em pura emoção intelectual, em adequado conhecimento, os grandes pensamentos eternos, ergue diante de nós a sonoridade apolínea do «verbo antigo», que é o mais próximo do LOGOS criador.
(...)E tal é o poder criador do pensamento, que revive adequadamente, sob espécie eterna, que você, meu amigo, levanta, diante de nós e no mesmo movimento, a alma e a paisagem helénica. Tanto a paisagem é alma, e a alma é convívio, comunicação natural!
O rio de Heraclito é tanto o rio que flui fora de mim, como este mesmo rio que, entrando-me pelos olhos, é o próprio movimento do tempo discorrendo.
A Imobilidade eleática é a omnipresença divina, a Unidade cósmica, e é a serenidade olímpica do Ar helénico e deste azul extático em que a Vida parou para meditar.
O próprio Diógenes caminhando não perturba essa atmosfera repousada, pois é mais um raciocínio em marcha, a «forma» e «alma» do movimento, que um corpo trocando relações.
E a lira de Pitágoras é para além do som, que só para o homem desatento e estúpido é inexpressivo, a relação numérica, a proporção que liga e une as coisas em fraterno convívio e universal comunicação.
É também o concerto destas vozes que das encostas se levantam, e por cima do rio se chocam em unidade perfeita, subindo aos céus como a prece da Noite, cantando.
A graça, o encanto delicado e incoercível do Amor, que tudo une, tudo «é» e em nada se resume ou esgota, é o verbo de Empédocles e o ar rarefeito e quieto da Montanha, a sua Solidão e Silêncio, cheios de presença divina e sem formas, que aos ouvidos nos murmuram místicas palavras de universal, plácido e repousado sentido.
(...)O seu livro é uma paisagem, e tão doce, serena e pacífica que não deixará de trazer da sua leitura um coração ampliado, tranquilo e contente.
As suas águas deixarão frescura para sempre, porque a água murmurando foge, Heracito a vê correr de tranquilos olhos imortais.
Nossos olhos mergulham na luz sereníssima da Grécia e um delicioso repouso nos acalenta o coração opresso.
A vida foge, transita e morre; mas a memória é de guarda, e na íntima luz do seu firmamento brilham imóveis, fixos e serenos os astros do pensamento eterno.
(...) O meu amigo começa por uma admirável obra de intelectual amor, não faz inúteis, insignificantes gestos de bailarino, entra de pronto no coração da vida e canta-a, revivendo na sua voz os mais sérios e religiosos movimentos de compreensão que a alma humana soube atingir.

Um grande abraço do seu amigo e camarada

Quinta do Tourago, Amarante, 26-8-1918.


L E O N A R D O C O I M B R A




quarta-feira, 13 de maio de 2009

LENINE EM CAPRI...VISITA A GORKI





















Vladimir Lenin is dead.Even in the camp of his enemies there are some who honestly admit: in Lenin the world has lost a personality "who embodied genius more strikingly than any other great man of his day"....That which I wrote about him soon after his death was written in a state of depression, hastily and poorly. There were some things tact would not allow me to mention; and I hope this will be fully understood. This man was far-seeing and wise, and "in great wisdom there is also great sorrow".He saw far ahead, and when thinking and speaking of people in 1919-1921 he often accurately foretold what they would be like a few years hence. One did not always want to believe in his prophecies, for they were not infrequently discouraging, but alas many of them came to fit his sceptical characterisations. My recollections of him, in addition to being poorly written, lacked sequence and had some regrettable gaps. I should have begun with the London Congress, with the days when Vladimir Ilyich appeared before me clearly illumined by the doubt and mistrust of some, and the obvious hostility and even hatred of others.
can still see the bare walls of the ridiculously shabby wooden church in the suburbs of London, the lancet windows of a small narrow hall much like the classroom of a poor school. It was only from the outside that the building resembled a church. Inside there was a total absence of any religious attributes and even the low pulpit stood not in the back of the hall but squarely between the two doors.I had never met Lenin until that year, nor even read him as much as I should have done. I was strongly drawn to him, how-ever, by what I had read of his writings, and particularly by the enthusiastic accounts of people who were personally acquainted with him. When we were introduced he gripped my hand firmly, probed me with his penetrating eyes, and said in the humorous tone of an old friend:"I'm glad, you came. You like a fight, don't you? Well, there's going to be a big scrap here."
MAXIMO GORKI










«Não é certa a data do primeiro encontro entre Gorki e Lenine. Há quem sustente que foi em Bruxelas, no decurso de um Congresso do Partido Social-Democrata Alemão. Ao ser-lhe apresentado, Lenine felicitou Gorki pelo livro A Mãe, publicado pouco tempo antes, tendo logo convidado o escritor a associar-se ao seu movimento político.»«(...) Tenho contudo, para mim, que a data do primeiro encontro é anterior a 1905. Situá-la-ia em finais do século XIX, na altura da inauguração do Teatro de Arte de Moscoco em Outubro de 1898. (...) Mas tão-pouco é esta data segura, uma vez que, mais ou menos nessa época, Lenine fora condenado a três anos de "exílio administrativo" na Sibéria.Já teria dele regressado?»«Independentemente da verdade no tocante a este ponto, o certo é que logo se estabeleceu uma corrente de simpatia que, mau grado desavenças várias, perdurou pela vida fora, conforme o atesta a correspondência trocada entre ambos. Nem de outro modo se compreende as idas de Lenine a Capri por dois longos períodos de tempo no meio de afazeres e compromissos de toda a ordem.»«Diário de Gorki, embora não datado. (Esta passagem deve ter sido redigida por essa altura.)"Lenine, esta manhã no terraço da nossa casa: - o indivíduo isolado de nada vale, por maiores que sejam os seus méritos, se não estiver inserido num projecto comum. Tenho tendência a concordar, mas com uma diferença de peso, todavia: para ele, a verdade pertence ao domínio da política e aí se esgota, para mim é antes de mais espiritual e civilizacional. O resto virá por acréscimo." Salientando, porém: "Há uma secura no pensamento de Lenine que me confrange e à qual sou alheio. Raciocina em termos geométricos, cruzando linhas e abrindo outras. Eu apreendo as coisas à maneira dos pintores, por contornos e matizes, a minha fantasia nasce de uma sucessão de imagens e alimenta-se delas. A realidade que procuro talvez não exista, mas todos os dias a vou encontrando, à minha maneira." (...)»«(...) Ao acaso: "Há gente assim cujos defeitos, de tão graves, anulam por completo as qualidades, por mais brilhantes que estas sejam. Patella dizia-me hoje que o mal de Lenine é o de nunca ter visto uma couve crescer, nunca ter acompanhado um filho à escola, nunca ter ido à pesca numa chata a remos e retornar a casa de mãos vazias. Sim, passar horas a fio no mar, em vão. Para nada. (...)Vou mais longe: eu diria que Lenine nunca presenciou a agonia de um ente querido. Também isso lhe falta. A morte dos outros é igualmente a nossa, porque nós somos os outros!".»«Já aqui o dissemos: esta percepção um tanto monolítica da personalidade de Lenine afigura-se-nos por demais simplista e não corresponde à realidade (...).»
citações de "Encontro em Capri ou O Diário Italiano de Gorki", Marcello Duarte Mathias

sábado, 11 de abril de 2009

De «DO PAÍS DA LUZ», de Fernando Lacerda



DEUS
I
Largos anos passei, aí no mundo,
A pensar, meditando na existência
De Deus, - o Ser de paz e de clemência,
Fonte de todo o amor puro e fecundo.
Eu fiz, na sua busca, estudo fundo
Através toda a humana consciência,
E dos ínvios caminhos da Ciência
Pela Terra, no Mar, no Céu profundo.
Bem desejava achá-lo, amá-lo e vê-lo.
E servi-lo, adorá-lo e conhecê-lo.
Em doce crença inalterável, viva.
Mas não o vi jamais, porque, mesquinho,
Enveredei aí por mau caminho:
- O trilho da ciência positiva.
II
Eu devia buscá-lo onde Ele mora:
Na suma perfeição da Natureza
E no esplêndido encanto e na beleza
Do Céu, do Mar, da Luz, da Fauna e Flora.
Eu podia encontrá-lo em cada hora
Nessa vida: no Amor e na Pureza,
Na Paz e no Perdão, e na Tristeza
E até na própria Dor depuradora.
Mas eu andava cego e nada via;
E a Vaidade escolheu para meu guia
A Ciência falaz, enganadora!
Se o Guia fosse a Fé ou a Bondade,
Vê-lo ia daí na Imensidade,
Como, em verdade, O vejo em tudo agora.
A. Q.


A DOMINIQUE SANTOS



EU SOU DO TAMANHO DO QUE VEJO

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no UNIVERSO...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VII"


A DOMINIQUE SANTOS

CONHEÇO O TEU PODER E A FOUCE DURA

Conheço o teu poder e a fouce dura
Que a tua dextra empolga assaz respeito.
Sei que abaixo do sol tudo é sujeito
A teu poder feroz, tua bravura.

De Babilónia a torre assaz segura
De teu golpe fatal sentiu o efeito.
Por ti o Ródio c'losso foi desfeito,
Sem lhe valer a desmarcada altura.

Mas eu tenho um padrão que Amor defende.
Tempo cruel, que zomba do teu corte,
Bem que a mim teu furor assaz ofende.

É o meu coração constante e forte,
Coração que do Tempo a mão não rende,
Coração que só vence a mão da Morte.

Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'










sexta-feira, 10 de abril de 2009

Para a Construção da Alma ( PARA A MADA )





Vítor Matos e Sá é o pseudónimo de Vítor Raul da Costa Matos. Nasceu em Maputo, antiga cidade de Lourenço Marques, em 1926, e faleceu em Espanha em 1975 vitimado por um acidente de viação. Licenciou-se e doutorou-se em filosofia pela Universidade de Coimbra tendo sido director do Instituto Filosófico da mesma universidade. Entre 1964 e 1970 fez vários estágios em Inglaterra. Colaborou. como poeta, na Távola Redonda. na Árvore. nos Cadernos do Meio-Dia. entre outras obras.


Para a Construção da Alma

Regressemos às flores:
Cada rosa é uma hora perdida da infância.


E temos grandes viagens interrompidas
(em cada rosa beijaremos a boca das manhãs)


E somos um dos lugares intermináveis da noite
(cada rosa é um coração do silêncio)


E adeus. Nos encontraremos, só, em nossa ausência,
como as rosas se encontram na noite.

Poema: Vitor Matos e Sá (1926-1975)






KALKI AVATARA - O CAVALO BRANCO




The Second Coming
by W. B. YEATS

Turning and turning in the widening gyre

The falcon cannot hear the falconer;

Things fall apart; the centre cannot hold;

Mere anarchy is loosed upon the world,

The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere

The ceremony of innocence is drowned;

The best lack all conviction, while the worst

Are full of passionate intensity.



Surely some revelation is at hand;

Surely the Second Coming is at hand.

The Second Coming! Hardly are those words out

When a vast image out of
Spiritus Mundi

Troubles my sight: somewhere in sands of the desert

A shape with lion body and the head of a man,

A gaze blank and pitiless as the sun,

Is moving its slow thighs, while all about it

Reel shadows of the indignant desert birds.

The darkness drops again; but now I know

That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,

And what rough beast, its hour come round at last,

Slouches towards Bethlehem to be born?
 
                   7 8 6
 
Por certo alguma revelação está próxima;
por certo a Segunda Vinda está próxima.
A Segunda Vinda! Mal profiro estas palavras
quando uma vasta imagem oriunda do SPIRITUS  MUNDI
me turva a visão: algures  nas areias do deserto
uma forma com corpo de leão e cabeça de homem,
um olhar neutro e implacável como o do sol,
move os lentos flancos enquanto em seu redor
se agitam as sombras de indignados pássaros do deserto.
Cai de novo a escuridão; mas agora eu sei
que vinte séculos de um sono de pedra
foram condenados ao pesadelo junto a um berço oscilante.
Que bruta fera, tendo chegado a sua hora,
se arrasta rumo a Belém para nascer?
W I L L I A M    B U T L E R    YEATS ( Trad. de  R. K. 9