sexta-feira, 5 de junho de 2009

«CAPAS»






NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer –

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguem sabe que coisa quere.

Ninguem conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ancia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!



A QUEM ME QUER






Onde Andará o Meu Amigo Só



Onde andará o meu Amigo só
que pedra em flor pisando
no caminho?
Gótica a agulha do silêncio ao alto
longe quem passa perto não a vê
eu perto a vejo de tão longe
quando

Onde andará o meu Amigo só
trepando às fontes derrubando
cantos?
Como quem tece um vento de memória
e dele se despede ou só da teia
não sobrevivo à minha vida
quando

Poema: Maria Alberta Menéres


PARA MADA


Praia

Brincávamos na areia. Os nossos passos
eram naqueles dias a cadência
a música do sol

Ó estilhaços do tempo ainda vivos
projectados num filme que regressa
ao ritmo das ondas
e fica ao nosso alcance, até ao fim
da tarde pouco a pouco devorada
pla sombra desses toldos

dunas esquivas e pinhais
tão perto do que foi a minha infância
entre o riso dos primos e o mar
amigo de Brandão de António Nobre
batido pla nortada

Brincávamos na areia. como eu queria
roubar de novo a luz a essas praias
jogar ao prego, adivinhar
nas vozes infantis algum presságio
do céu ou do inferno - uma certeza
para sempre fiel a esse mundo


Poema: Fernando Pinto do Amaral


quarta-feira, 3 de junho de 2009

RUDOLF STEINER - EURITMIA









MAIO




Maio
florido e vermelho
porque eu vejo as bandeiras erguidas em luta
e perene é o esforço
do homem desperto
(em caminhada)
rumo à luz
Maio
florido e vermelho
da giesta amarela
embandeirada nos montes
e feita esconjuro
(de azares
no silêncio)
trazida para a rua em dia de festa
nas multidões irmanadas
de tempos que foram
Maio
florido e vermelho
em rosas e cravos
de seda preciosa
(ornamento de deuses)
ou de fúria carnal
a ostentar
desvairada
o grito aceso
de gargantas despertas
Maio
florido e vermelho
anúncio de explosões
por detrás do húmus
marca
de revoltas urdidas
(na primavera aberta)
ao troar de canhões
e depois silenciada
no marasmo do tempo
Maio
florido e vermelho
horizonte dos frutos
e terreno frágil
de promessas quebradas
no estertor dos dias
na rotina das horas
(mas)
Maio
florido e vermelho
(sempre
florido e vermelho)
na contaminação do tempo
na pureza do instante

REGINA SARDOEIRA

sexta-feira, 29 de maio de 2009

PONTES entre NÓS


Eu tenho o tempo
Tu tens o chão
Tens as palavras
Entre a luz
E a escuridão...

Eu tenho a noite
E tu tens a dor
Tens o silêncio
Que por dentro
Sei de cor...

E eu e tu
Perdidos e sós
Amantes distantes
Que nunca caiam
As pontes entre nós...

Eu tenho o medo
Tu tens a paz
Tens a loucura
Que a manhã
Ainda te traz...

Eu tenho a terra
Tu tens as mãos
Tens o desejo
Que bata em nós
Um coração...

E eu e tu
Perdidos e sós
Amantes distantes
Que nunca caiam
As pontes entre nós...(2x)

Que nunca caiam
As pontes entre nós!
Que nunca caiam
As pontes entre nós!


quarta-feira, 20 de maio de 2009