quarta-feira, 17 de junho de 2009

GENTILEZA DE MADA


Gosto de ouvir
isto...

http://www.youtube.com/watch?v=9FBD0OZaX5o

Gostei muito de lêr o ESPIRITO DO TEMPO
de JUNG.
Obrigado.


Uma poesia que te deixo...

Redondilhas com Varanda



Visto-me de lume
na varanda nua
e caio de braços
na concha da rua.

Sangue derramado
neste chão imundo
mata a sede às pedras
e às raivas do mundo.

Náufrago imperfeito
agarrado à lua
com olhos de prata
nas trevas da rua.

Pombas ou gaivotas
na varanda a poente
o mar é a terra
e o céu está na gente.

Poema: Maria Almira Medina




GENTILEZA DE DOMINIQUE SANTOS


Hino à Alegria

Tenho-a visto passar, cantando, à minha porta,
E às vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
Sentar-se à minha mesa, e a sorrir, meia morta,
Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar.

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
Quase meiga, apesar do seu riso constante,
De olhos a arder, lábios em flor, cabelos soltos,
A um tempo é cortesã, deusa ingénua ou bacante...

Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
Tem como o Sol de Inverno um brilho encantador;
Mas o brilho é fugaz, — cintila na penumbra,
Sem que dele irradie um facho criador.

Quando menos se espera, irrompe de improviso;
Mas foge-nos também com uma presteza igual;
E dela apenas fica um pálido sorriso
Traduzindo o desdém duma ilusão banal.

Onda mansa que só à superfície corre,
Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!
A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,
Se em nós crava a raiz exaustiva e profunda!

No entanto, eu te saúdo e louvo, hora dourada,
Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,
Como chuva a cair numa planta abrasada,
A fornalha em que a Dor se transmuta em Beleza!

Pensar, é certo, eleva o espírito mais alto;
Sofrer torna melhor o coração; depura
Como um crisol: a chispa irrompe do basalto,
Sai o oiro em fusão da escória mais impura.

A Alegria é falaz; só quem sofre não erra,
Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que O louve;
A Alma, na oração, desprende-se da terra;
Jamais o homem é vão diante de Deus que o ouve!

E contudo, — ilusão!—basta que ela sorria,
Basta vê-la de longe, um momento, a acenar,
Vamos logo em tropel, no capricho do dia,
Como ébrios, evoé! atrás dela a cantar!

Mas se ela, de repente, ao nosso olhar se furta,
Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso;
A Alegria perfeita é uma aurora tão curta,
Que mal chega a doirar as cortinas do berço.

Às vezes, essa luz, de tão frágil encanto,
Vem ainda banhar certas horas da Vida,
Como um íris de paz numa névoa de pranto,
Crepitação, fulgor duma estrela perdida.

Então, no resplendor dessa aurora bendita,
Toma corpo a ilusão, e sem ânsias, sem penas,
O espírito remoça, o coração palpita
Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!

Mas efémera ou vã, a Alegria... que importa?
Deusa ingénua ou bacante, o seu riso clemente,
Quando, mesmo de longe, ecoa à nossa porta,
Deixa em louco alvoroço o coração da gente!

Momentânea ou falaz, é sempre um dom divino,
Sol que um instante vem a nossa alma aquecer...
Pudesse eu celebrar teu louvor no meu Hino!
Momentâneo, falaz encanto de viver!

O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,
E eu não sei traduzir a ventura que exprimes!
Nesta sentimental língua que nós falamos,
Só a Dor e a Paixão têm acordes sublimes!

António Feijó, in 'Sol de Inverno'

terça-feira, 16 de junho de 2009

TERNURAS DA MADA


Prólogo



Fui avestruz. Sou ruminante
De seiva lírica. A pastagem,
Outrora verde e abundante,
Está queimada da estiagem.

Olhar o céu límpido e mouco
Não vale mais do que o que foi.
A água tarda. O pasto é pouco.
A fome rói.

Ah, se uma lágrima bastasse
Pra encher de viço esta secura!
Sinto-a a escorrer-me pela face
Futura.

António Manuel Couto Viana


Beijinhos e Um Bom Dia Alberto.

Madalena

Poente

Há uma profusão furiosa de final.
Para morrer em triunfo a multidão é apta.
Irrompe entre carmins um ímpeto animal.
A maravilha invade e violenta nos rapta.

Poema: Eugénio de Andrade


sábado, 6 de junho de 2009

De «DIÁRIO DE MIGUEL TORGA» do XII Volume



COIMBRA,19 de Julho de 1974-Tem sido de caixão à cova.Pobre país! E o que estará ainda para vir! Mas não posso,nem quero,perder o pé na pátria. Terei de enfrentar o absurdo desta hora infeliz mesmo com ganas de voltar costas a tanto e tanto desconcerto. O pacto que assinei não foi com o azar das circunstâncias. Foi com a terra portuguesa. E continuo a sentir a terra debaixo dos pés,e a poesia continua a cantar dentro de mim. O meu espaço de liberdade é o mapa de Portugal subendendido na folha de papel onde escrevo.
COIMBRA,7 de Abril de 1975-Os estrebuchões que a pátria dá no hospital revolucionário a que a reduziram! Necessitada de uma clarividente terapêutica revitalizadora, ninguém esperava vê-la do pé para a mão transformada de norte a sul num desesperado corpo convulsivo. Mas somos assim:ou tudo ou nada. Ou amodorrados numa sonolência de morte,ou possuídos de uma agitação frenética. Ou catalépticos,ou atacados da doença de S. VITO.O espéctáculo que damos neste momento ao mundo não é o de um povo que se esfoça por actualizar ousada e sensatamente a sua vida retrógrada.É o de um manicómio onde enfermeiros improvisados e atrevidos submetem nove milhões de concidadãos a um electro-choque aberrante e desumano.
-Bragança, 1 de Maio de 1975-Pareço um fiscal a percorrer a pátria.Passo por Foz Côa,e apresso-me a ir ver se a igreja manuelina ainda se aguenta nos alicerces;chego aqui,e subo ao castelo,entro na Domus Municipalis,visito o museu,de coração apertado,não as tenha o diabo tecido;amanhã em Miranda,Deus sabe as desilusões que me esperam na rua da Costanilha.É que o Portugal que valia a pena,o Portugal original,o Portugal de rosto singular,está por um fio.Em cada terra resta apenas um vestígio.E são esses fragmentos de uma fisionomia própria que inventario incansávelmente.É com eles que os vindouros poderão reconstruir a nação que já houve.Lineu partiu também de um simples osso...
COIMBRA,20 de Junho de 1975-Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona,as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto,a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que apesar de tudo valeu a pena assistir ao descalabro. Cuidavam que combatiam pelo futuro e,na verdade,assim acontecia,mas apenas na medida em que o sonhavam como se ele tivesse de ser coerente com a dignidade do seu passado de lutadores. O trágico é que um futuro sonhado não passa de uma ficção. O tempo é o lugar do inédito. O futuro autêntico é sempre misterioso e autónomo das premissas de que partiu. Quando chega,traz os seus valores,as suas leis,a sua gente,nem boa nem má. Traz os títeres que lhe convêm.Ou pior:os títeres a quem a hora convém.
Chaves,11 de Setembro de 1975
Pátria sem rumo,minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta,adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?
Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia...
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!...
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente...


BLOQUEIO - REGINA SARDOEIRA



BLOQUEIO

BLOQUEIO
BLOQUEIO
BLOQUEIO
QUASE INSANIDADE
ESTE QUERER DIZER O INDIZÍVEL
E APESAR DE TUDO CALAR O DIZÍVEL
E BLOQUEIO
SÓ BLOQUEIO
POR ONDE ANDA A FLECHA
CAPAZ DE FENDER A NUVEM
E O ESPANTO
CAPAZ DE SENTIR A TORTURA
DO QUERER SABER
DO QUERER TER?

REGINA SARDOEIRA



PARA LÁ DO HORIZONTE - REGINA SARDOEIRA

Hieronymus Bosch (1460-1516), Cristo Levando a Cruz


PARA LÁ DO HORIZONTE
Vagabunda
(amarrada a um assento duro de vida cronometrada)
sou a errância confusa da mente apertada
em parafusos lógicos
e solto-me sempre
(nas linhas do pensamento)
e vejo a estrada
sempre a estrada
como metáfora de sonhos
pendurados no futuro
e amordaçados no passado
O presente
(é a armadilha do tempo
incrustado em pequenos oásis de brilho
entretecidos num cansaço sem apelo)
e eu queria poder fugir
desta armadura de regras e horas
deste contínuo vozear das leis dos outros
que eu não quero
que eu não quis
As obras estão feitas
e contudo
repousam ocultas
dos olhos viscosos
(aptos
na arte de corromper tudo o que afagam)
e expulso-os
a todos
(vilões ou heróis)
todos eles borrões
quando de mim se afastam
envolvidos numa névoa suja
Vagabunda
(sim
errante)
para lá do pensamento
da sinfonia das horas
do mortal cansaço das manhãs soturnas
(sempre iguais) e contudo
refulgentes num qualquer arco-íris
escondido para lá do horizonte

REGINA SARDOEIRA


«FERNANDO PESSOA» - POEMA A MIM DEDICADO A QUANDO DA MINHA RECEPÇÃO NA SANTA IGREJA ROMANA - LUIS REIS ( TEÓLOGO ORTODOXO )



Ao Alberto,

Irmão agora ungido pelo Santo,

doravante ainda mais temido

por todo vil inimigo da Igreja amada,

Filho inquieto da Pátria fiel

que ora nos chama a ser futuro,

Amigo do peito,

Pai de minha consciência pátria,

dedico comovido

e com um abraço muito apertado,

estes ecos inspirados de minha

alma.


17.05.81



FERNANDO PESSOA

Ao Alberto Castro Ferreira

Poeta,

vero poeta todo ele,

do alto extremo ao extremo baixo,

por Orfeu divino musalmente bafejado.

Em privilégio inspirado plo destino sempre foi,

que bem ou mal fadado pelo Fado

bem cumpriu.

Mago do verbo luso,

não ditoso pátrio dizente de tão alto génio

fatiloquamente ancorado às distâncias nele perto,

de outrém remotas,

a viver foi ele, em vida, abandonado anacoreta,

lá por florestas virginais, por ele só sabidas,

repassadas por inauditos sonidos,

fonia arcânica além da morte dos silêncios,

tal nunca ouvidos.

Existido ente em drama único, multíviasmáscaras,

coabitantes personagens paralelas

que a padecer a vida foram em igual morada,

,

a mesma e só a veraz e sua:

perdida lhe aparece então,

e de tão almejada, o heróico peito lhe aquece.

A sós e sempre a sós sofrendo,

ele era multifário solitário que se vivia pra seu amado Portugal se ir fazendo.


Em ânsias de frémito saturado,

a face ele buscou, de desejado e de encoberto,

em sede quente, pra de nomes e de máscaras.

E na peleja e no recontro,

sarando-se em batalha de vida ou nada, não vencida, não perdida,

a reachou, que a já houvera, oca embora,

por não tal suposta ;

oca do muito, demasiado tudo

que em ele houvera e não ficara,

que a ser bastante ainda não chegara para o alguém ignoto de todo outro

e também de si.

Dos ramos seus desentroncados,

plo externo verso aquém da seiva sua,

desceu ao estar arbóreo de seu ser no mundo,

directo ao hiperbóreo jeito em seu estar profundo,

arborizado por bosques perdidos e jardins esquecidos,

nu já porém das dele muitas folhas que caíram,

folhas doridas, outonais e amarelas

que plo potente vendaval, impessoal e indiferente,

foram varridas, todas elas, em piedade quase nula,

sem pejo algum que além do ver dos olhos

bem se visse.

Cala nele o dito do mistério, flor desfolhada no infante virgem

cujo fruto a esfinge oracular ser se mostrou do Portugal por vir.


Diz,

e o limite lho desdiz

tão afável, inefável paradoxo

da ora nascitura, ora moribunda, palavra incendiada

no altar alado da boca do poeta,

que a morrer-nos mais parece sempre estar,

ao desvelar em um lamento lasso do atento rosto

o que antes é velante revelado

à ofuscada em espanto vista do vidente,

cheia de olhos, universos feitos,

estátuas finais do derradeiro

místico mito ressurrecto.

o que vê e escuta, ele prescruta e a dizê-lo todo nunca chega.

A nós diz-nos apenas, e muito é,

que o dito não é o visto em audiência nem todo o visto no segredo

à vidência lá é dito,

sussurrado ao hirto ouvido,

no poema encoberto e sempre oculto

do Poeta destarte adulto

pelo verbo dito.


LUIS REIS