COIMBRA,19 de Julho de 1974-Tem sido de caixão à cova.Pobre país! E o que estará ainda para vir! Mas não posso,nem quero,perder o pé na pátria. Terei de enfrentar o absurdo desta hora infeliz mesmo com ganas de voltar costas a tanto e tanto desconcerto. O pacto que assinei não foi com o azar das circunstâncias. Foi com a terra portuguesa. E continuo a sentir a terra debaixo dos pés,e a poesia continua a cantar dentro de mim. O meu espaço de liberdade é o mapa de Portugal subendendido na folha de papel onde escrevo.
COIMBRA,7 de Abril de 1975-Os estrebuchões que a pátria dá no hospital revolucionário a que a reduziram! Necessitada de uma clarividente terapêutica revitalizadora, ninguém esperava vê-la do pé para a mão transformada de norte a sul num desesperado corpo convulsivo. Mas somos assim:ou tudo ou nada. Ou amodorrados numa sonolência de morte,ou possuídos de uma agitação frenética. Ou catalépticos,ou atacados da doença de S. VITO.O espéctáculo que damos neste momento ao mundo não é o de um povo que se esfoça por actualizar ousada e sensatamente a sua vida retrógrada.É o de um manicómio onde enfermeiros improvisados e atrevidos submetem nove milhões de concidadãos a um electro-choque aberrante e desumano.
-Bragança, 1 de Maio de 1975-Pareço um fiscal a percorrer a pátria.Passo por Foz Côa,e apresso-me a ir ver se a igreja manuelina ainda se aguenta nos alicerces;chego aqui,e subo ao castelo,entro na Domus Municipalis,visito o museu,de coração apertado,não as tenha o diabo tecido;amanhã em Miranda,Deus sabe as desilusões que me esperam na rua da Costanilha.É que o Portugal que valia a pena,o Portugal original,o Portugal de rosto singular,está por um fio.Em cada terra resta apenas um vestígio.E são esses fragmentos de uma fisionomia própria que inventario incansávelmente.É com eles que os vindouros poderão reconstruir a nação que já houve.Lineu partiu também de um simples osso...
COIMBRA,20 de Junho de 1975-Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona,as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto,a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que apesar de tudo valeu a pena assistir ao descalabro. Cuidavam que combatiam pelo futuro e,na verdade,assim acontecia,mas apenas na medida em que o sonhavam como se ele tivesse de ser coerente com a dignidade do seu passado de lutadores. O trágico é que um futuro sonhado não passa de uma ficção. O tempo é o lugar do inédito. O futuro autêntico é sempre misterioso e autónomo das premissas de que partiu. Quando chega,traz os seus valores,as suas leis,a sua gente,nem boa nem má. Traz os títeres que lhe convêm.Ou pior:os títeres a quem a hora convém.
Chaves,11 de Setembro de 1975
Pátria sem rumo,minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta,adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?
Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia...
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!...
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente...