sábado, 27 de junho de 2009

Reconhecimento do Amor


Amiga, como são desnorteantes
Os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
Onde se reclina a inquietação do forte
(Ou que forte se pensa ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos
A bruma da renúncia:
Não querias a vida plena,
Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
Não pedias nada,
Não reclamavas teu quinhão de luz.
E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.
Descansei em ti meu feixe de desencontros
E de encontros funestos.
Queria talvez - sem o perceber, juro -
Sadicamente massacrar-se
Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
Desde a hora do nascimento,
Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História,
Ou mais longe, desde aquele momento intemporal
Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
No caos universal
Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
Sua espada coruscante, seu formidável
Poder de penetrar o sangue e nele imprimir
Uma orquídea de fogo e lágrimas.
Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
Ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
O Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
Quando - por esperteza do amor - senti que éramos um só.
Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas.
Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
E a pura essência em que nos transmutamos dispensa
Alegorias, circunstâncias, referências temporais,
Imaginações oníricas,
O vôo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
Todas as imposturas da razão e da experiência,
Para existir em si e por si,
À revelia de corpos amantes,
Pois já nem somos nós, somos o número perfeito: UM.
Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
E se confessasse jubilosamente vencido,
Até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
A melodia, a paisagem, a transparência da vida,
Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 23 de junho de 2009

A situação política da língua portuguesa



Escrito por Francisco Moraes Sarmento

 A língua dispõe duma relação étnica assinalada pela semântica, sintaxe e estilística, aspectos que, digamos, reflectem modos próprios de imaginar, pensar e sentir de cada povo. O idioma mostra o carácter e o grau de civilidade do seu ideal de homem e do mundo. A gramática é primeira iniciação à ideia de Pátria e o estilo, sinal do logos, é a razão eficiente das línguas que se tomam símbolos de pátrias. A arte poética ensina-nos que as palavras emergem do espírito e que, por conseguinte, é de sua natureza o serem invioláveis. Do problema ao mistério, as palavras guardam a inspiração dos poetas, escritores e filósofos, esses a quem os antigos clamavam serem rapsodos dos deuses, para enunciarem as analogias, actuais ou patentes, que potenciam a espiritualidade da comunidade dos homens. A eles se deve a concepção de novos significados e originais relações sintácticas que visionam o estilo de cada povo, ou seja, a ulterior visão do honem e do mundo. No domínio antropológico, isto é, no que não depende do original socorro do espírito paracléctico, aqueles teólogos são os autores da língua. A confessada intenção do Acordo Ortográfico em desvalorizar a etimologia destina-se a obscurecer o significado das palavras, o que equivale a ignorar a tradição. As línguas tornam-se ignorantes do espírito e diminuem-se em meras convenções impostas pelas instituições. Diremos então: oficialmente, a língua portuguesa morreu e está transformada numa língua de escravos, servos e bárbaros (editorial publicado no nº5/6 da Leonardo, em Março/Setembro de 1989).

A situação cultural da língua portuguesa tem sido nos últimos meses escopo de notícia a propósito do anteprojecto Bases da Ortografia Unificada através do qual se pretende colocar o nosso idioma ao serviço das técnicas de domínio dos povos.

Nestas páginas já afirmámos que as reformas dependem de raciocínios falaciosos que impõem ilusórias soluções para falsos problemas. Tais métodos resultam de atitudes tecnocráticas, burocráticas e administrativas do funcionalismo público e da classe política e obedecem a critérios, hoje tidos correctos, já amanhã considerados errados.

Prosseguindo finalidades utilitárias e pragmáticas, o chamado acordo ortográfico procura unificar e simplificar a língua portuguesa, objectivo que as tubas oficiais e institucionais anunciam como necessário ao advento da eficácia da cultura portuguesa no mundo. É evidente a influência dos tentamos da política e da economia, ignorando-se que o idioma não é mero instrumento da praxis ideológica, nem dos processos do negócio.

Em outro aspecto, o referido acordo enferma de um anquilosado estruturalismo linguístico que, ao jeito da doutrina positivista, concebe a língua, qual matemática, composta por signos passíveis de simplificação. As frases são já, e tão-só, operações de carácter abstracto e sem verificação empírica ou real. Estas construções mentais, confundidas com o regresso ao uno, à unidade e ao universo, são consideradas tópico universal da língua. Tal pretensão é desmentida pela gramática, primeira iniciação à ideia de Pátria, e pelo espírito que pesa, conta e mede a ordenação da realidade.

O acordo não atende à semântica, à simbólica e à estilística e, por conseguinte, carece de capacidade para transmitir as virtualidades poéticas, filosóficas e cientificas da língua portuguesa aos outros povos lusíadas do concerto das nações. Ao impor a simplificação ortográfica, o anteprojecto somente sanciona a deturpação da língua e a decadência do pensamento, despe-a do querigma.

Aquele documento apenas procura valorizar o linguajar de rua formada por uma linguagem comum marcada pelo espírito digamos demoníaco, da imprensa e das chamadas técnicas de comunicação de massas. Efectivamente, até a pronúncia e a fonética, disciplinas auxiliares da filologia, não estão adequadamente consideradas, pois não são respeitadas, por ignorância ou preguiça, pela linguagem corrente, que agora se pretende impôr a todos os modos de falar, escrever e pensar português e em português.

A situação é tanto mais grave quanto se procura introduzir e até, fixar, grafias brasileiras, intenção que associada à nefasta vigência de nomenclaturas, classificações e definições germânicas e francesas, mais ainda deturpam a vida das palavras e do idioma.

A confessada intenção de desvalorizar a etimologia é pretender obscurecer o significado das palavras, o que equivale a ignorar a tradição. A refutação da tradição, questão que pertence ao domínio do pensamento humano, é impedir a formulação de um ideal patriótico através do qual todos nós comungamos um ideal de homem.

As línguas tornam-se ignoras do espírito e diminuem-se em meras convenções impostas pelas instituições. Diremos então: oficialmente, a língua portuguesa morreu e está transformada numa língua de escravos, servos e bárbaros.

A língua dispõe duma relação étnica assinalada pela semântica, sintaxe e estilística, aspectos que, digamos, reflectem modos próprios de imaginar, pensar e sentir de cada povo. O idioma mostra o carácter e o grau de civilidade do seu ideal de homem e do mundo.

O valor comunicativo da língua patenteia-se na filosofia, na arte e na ciência, mas sobretudo reside numa razão que demanda a tradição que lhe assegure actualidade. Essa tradição é a enigmática aliança que converte a comunidade dos homens num convívio de espíritos. Queremos significar o seguinte: os idiomas assinalam a transcendência da humanidade. As palavras sofrem metamorfoses e no trânsito são, por assim dizer, as naus dos anjos ou das divindades.

A epifania do logos cai nas categorias do pensamento humano e origina as tradições entre os homens. O estilo, sinal do logos, é a razão eficiente das línguas que se tomam símbolos de pátrias.

A arte poética ensina-nos que as palavras emergem do espírito e que, por conseguinte, é de sua natureza o serem invioláveis. Do problema ao mistério, as palavras guardam a inspiração dos poetas, escritores e filósofos, esses a quem os antigos clamavam serem rapsodos dos deuses, para enunciarem as analogias, actuais ou patentes, que potenciam a espiritualidade da comunidade dos homens. A eles se deve a concepção de novos significados e originais relações sintácticas que visionam o estilo de cada povo, ou seja, a ulterior visão ornem e do mundo. No domínio antropológico, isto é, no que não depende do original socorro do espírito paracléctico, aqueles teólogos são os autores da língua.

Uma unidade linguística equivale a realidade de um pensamento e, em consequência, a virtualidade de uma Pátria. Não é história, a arte, a politica, a religião, a cultura ou o culto que por si geram as pátrias. Nesses domínios, buscam-se argumentos que se aduzem a existência de cada povo e, até, de uma Nação ou Estado. Não obstante, são insuficientes para esclarecer a realidade de uma entidade espiritual que carece do concurso do espírito humano.

As pátrias resultam da especulação filosófica sobre os acontecimentos e eventos históricos e artísticos, políticos e religiosos, culturais e cultuais. Queremos dizer: ao homem é necessária a pátria porque insituados só os anjos e os deuses. Ela é o nexo entre o espírito humano (o homem) e o Espírito puro, ou se quisermos, o Espírito Santo. A palavra é categoria de perfeição e a perfeição é imutável.

Sem a palavra, o ideal patriótico permaneceria oculto e incomunicável, ou seja, apenas seria uma virtualidade subjectiva do imperfeito pensamento. Desde todo o sempre, a palavra e portadora da perfeição e da boa nova. Do verbo fiiosofante emerge a finalidade espiritual e transcendente de um povo e a consciência patriótica de cada um de nós. É a arte de pensar, ou seja, a filosofia que concebe as pátrias.

Emergentes do pensamento, as pátrias não são instituições, embora sejam institucionalizáveis ou constitutivas. A consciência patriótica não carece de urna arquitectura jurídica para se objectivar. A pátria firma-se no pensamento, expressa-se pela palavra e perdura na língua.

Neste passo retira-se que a língua garante a realização do Direito ou do Estado pelo que a legitimidade das instituições também deriva do uso que fazem do idioma. Como sublinhamos em anteriores edições, o Direito introduz a Verdade, a Liberdade e a Justiça nas relações sociais e na vida comum dos Portugueses.

Convém não esquecer que deturpar a tradição e na acção politica obstruir a Verdade, a Liberdade e a Justiça e equivale indeterminar a coisa pública, isto é, a República.

Sem as categorias próprias a situação do nosso pensamento, a presença do espírito entre os Portugueses e é ditada por concepções retiradas de vivências de outros povos.

São conhecidas casos de legislação produzida por órgãos de soberania traduzidas de leis que vigoram em Bona, Paris ou Bruxelas. O Estado faz um delito de cópia, utilizando uma expressão do nosso Sampaio Bruno.

A tradução literal é uma técnica cujas deficiências explicam-se pela vivência própria de cada pensamento. O poeta Teixeira de Pascoaes afirma que o génio de um povo reside nas palavras intraduzíveis do seu idioma para significar que as suas características, patentes na semântica, na sintaxe e na estilística, não permitem a tradução sob pena de deturpar as relações entre o natural e o sobrenatural que a língua exprime. A tradução contradiz a tradição, adverte Álvaro Ribeiro.

Por outro lado, é verificável que a filosofia da linguagem e a teoria da palavra expostas e esclarecidas em obras de poetas e filósofos Portugueses são ignoradas nas instituições universitárias e, por conseguinte, não tem acompanhado o ensino da nossa língua nas escolas. É significativo que nas bibliografias dadas aos alunos da disciplina de filosofia da linguagem não constem quaisquer nomes de autores Portugueses.

Esta hostilização social tem sido combatida por filósofos, escritores e poetas, discípulos do magistério filosófico e poético de Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes e continuadores dos ideais e da doutrina exposta pelo movimento A Renascença Portuguesa. O repúdio da consciência patriótica e do espírito que enforma a língua portuguesa impedem a iniciação das novas gerações de Portugueses na ideia de Pátria, sendo decerto uma das causas do divórcio existente entre as instituições e a Nação.

Oficialmente, a língua portuguesa e clandestina. Em nosso parecer, a língua pátria é um sagaz silêncio da oprimida alma lusitana.

Francisco Moraes Sarmento


domingo, 21 de junho de 2009

A Flor



Escrito por Eduardo Aroso

«Mansa colmeia

A que ninguém colhe o mel!...»

Miguel Torga

Era ainda lua e a flor abriu-se
De seu nome cravado no tempo.
Mas, por não ter sol, extinguiu-se
E ficou só haste do momento…
Tágides, ninfas, musas do futuro,
Nenhuma delas vem à nossa voz,
Porque à tenra flor faltava ter
A seiva mais funda que há em nós.


Escola de Filosofia Portuguesa. Ensaios Peripatéticos



Obra de estreia de autor da nova geração da Escola de Filosofia Portuguesa na qual se afirma continuador do magistério espiritual de Álvaro Ribeiro e Orlando Vitorino.

A afirmação de uma escola de pensamento supõe a existência de um sistema de filosofia. Esta tese que foi exposta por Álvaro Ribeiro em 1943, em “O Problema da Filosofia Portuguesa” e desenvolvida por Orlando Vitorino, encontra no Autor deste livro um dos defensores mais activos e sistemáticos. Simultaneamente, expõe uma ideia de razão que tem em consideração a razão experimental de Leonardo Coimbra, a razão crucial de José Marinho e a razão animada de Álvaro Ribeiro, distinguindo-a da razão raciocinante ou racionalismo ideológico.

Deduzindo a teoria, o Autor defende o sistema da filosofia portuguesa enquanto religião da razão. Religião é o que re-liga e será aqui resultado do amor dos filósofos e sinal de perfeição do sistema de três ciências filosóficas: antropologia, cosmologia e teologia.


Os textos reunidos neste volume foram publicados, entre 1999 e 2003, em diversos órgãos de comunicação social, entre os quais o Diário de Notícias e o Semanário, numa coluna de opinião que o Autor intitulou “Webnotas”. Neles se discorre sobre o impacto das novas tecnologias na vida social, profissional, doméstica e pessoal.

Com 166 páginas, neste livro expõe-se uma visão da vida nova sob o ponto de vista teórico e retira as consequências em diversos domínios práticos. No prefácio, assinado por João Seabra Botelho, sublinha que não se deve estranhar que “por um olhar filosófico se possa confrontar a cibernética com quaisquer outros movimentos ou momentos da história presente, passada ou futura, e que desse olhar e percurso possam resultar filosofemas de cosmologia ou antropologia que esclareçam as semelhanças e diferenças da era cibernética, que desvendem o destino e os fins do homo cirberneticus, filosofemas que vão conhecendo e medindo segundo escalas de valores, perenes ou transitórios.”

A nova visão para a sociedade é deduzida da filosofia, em diálogo com a ciência e a técnica. A este propósito, João Seabra Botelho afirma que “a cibernética é já uma expressão desta nova Física, pilar de uma Ciência Pós-Moderna que se reconcilia com as Cosmologias possíveis, entre elas a que aceita
a possibilidade de uma visão cíclica e ciente da eternidade do Mundo. Liberto de peias racionalistas, o método científico abre-se entusiasmado à imaginação, num exercício de especulação que, antes, parecia ser exclusivo da falta de “objectividade” do mais filosófico pensamento. Mas é com esses rasgos de imaginação que se chega hoje a elaborar teses à altura dos maravilhosos segredos naturais que se nos revelam nos confins do já conhecido.”. E conclui: “neste contexto, Moraes Sarmento, filósofo, sente a abertura conceptual e imagética que as novas fronteiras virtuais propiciam. Observa e descreve uma nova linha de conhecimentos e acontecimentos que podemos agrupar genericamente sob a designação de “cibernética”, e dá-nos as suas novidades e diferenças com mais nitidez, porque em contraste ou referência com o que permanece estável, ad aeternum.

Da tese principial, segundo a qual a internet é um instrumento de liberdade, deduz as suas consequências para os hábitos das pessoas e para o mercado, numa perspectiva não positivista do homem e da comunidade orientada pela ideia, segundo a qual o liberalismo é o sistema da liberdade. (clique
aqui para ler a versão integral do prefácio)

Índice

Capítulo Um: Liberdade e Tecnologia
Ciberlugar, Dois caminhos, Tecnologia, Fenomenologia tecnológica, Vazio tecnológico, A instigação, Fantasmas, Regresso, Linhas tortas, Liberdade, Liberdade com hábito, Oração racional, Revolução tranquila, Um mundo a fazer, Educação, Instrumento de liberdade, Exprimir, Publicar, Imaginar a escrita, Tradição, Língua clandestina, A oportunidade da língua.

Capítulo Dois: Visão e Estratégia
Decisão estratégica, “Info-exclusão” organizacional, Mercados amplos e abrangentes, Liberdade e gestão, Finalidade e incerteza, Janelas, “Sei que nada sei”, Gato por lebre, Novas relações, respostas inovadoras, Conveniências, Conquistar e fidelizar clientes, Converter borboletas, Dia seguinte, Esforço e produtividade, Conflitos existenciais, Resistência e mudança, Reais obstáculos, Dias de amanhã, Modo de vida, Personagens, Hábito e preconceito, Segurança, Excluídos e analfabetos, Vida conversável, Para além do negócio, Responsabilidade social, Comunidade e negócio, A via comunitária, Comunidade de aprendizagem, Saber acumulado, Pontos de entrada.

Capítulo Três: Informação e Comunicação
Imaginar e integrar, Nova “infoestrutura”, Natureza das organizações, Oferta e procura, Poder e informação, Segredo e ciberespaço, O jogo, Prontidão, Valor, Almanaque, Posicionamento digital, Estatuto e cegueira, Rapidez, Comunicação favorável, Comunicação e partilha, Conjugar interesses.



Capítulo Quatro: Aplicações em rede
A obrigação, Orgulhosamente sós, Especulação, Instrumentos, Olho de rei, Respirar fundo, E-cenários, “Marketing de eventos”, Encantar, “E-mail marketing”, Mudança, “Onda virtual”, Custos telúricos, “Status”, Vida do “e-mail”, Planear o “e-mail”, Gerir o “e-mail”, Ler o “e-mail”, Medir “e-mails”, Aplicações, Formação a distância, Formação em rede, Enteado da formação, Ciberlugar escolar, Livros digitais escolares, Editores, Induzir qualidade.



Preceitos alvarinos sobre o que mais importa



Escrito por Direcção Quando, no presente, haja por aí quem confunda «filosofia em Portugal» com filosofia portuguesa; quando, preconizando novas formas de internacionalismo, confunda o geral com o específico; quando, adoptando a nomenclatura universitária, anule o concreto, o substancial e o situado nos meandros de uma pátria alternativa mundial, ou, simplesmente, na selva oscura de «um outro paradigma e uma outra globalização»; quando, enfim, sugira ou aparente ser aquilo que não é, a Leonardo, fiel à fisionomia espiritual da Pátria Portuguesa, expõe aqui os vinte preceitos que fazem da respectiva filosofia o orgão da liberdade do povo português, extraídos de "O Problema da Filosofia Portuguesa".

1 – «A SOFIA é o conhecimento especulativo do absoluto».
2 – «Como ciência, saber sistemático e comunicável por conceitos, a filosofia dificilmente se expande fora do ambiente esotérico que lhe é próprio».
3 – «A sofia é insusceptível de divulgação».
4 – «(…) a iniciação na filosofia só pode ser feita dentro duma sociedade tradicional».
5 – «(…) a problemática filosófica, resultada da crítica aos erros dominantes nos três séculos passados, oferece ao espírito português a possibilidade de verificar a compatibilidade do aristotelismo dos coimbrões com o mais elevado e o mais recente voo do pensamento especulativo».
6 – «Quem diz escol, diz escola».
7 – «A precoce negociosidade adultera fatalmente a alma popular».
8 – «A vocação é mais do que aptidão».
9 – «À leitura do Livro é preferível a contemplação da Natura, de todos os seus espectáculos e eventos».
10 – «Não há ciências morais, nem políticas, nem pedagógicas para quem tiver clara noção da gnosiologia».
11 – «Interessa (…) não confundir a religião com a filosofia. A religião é unitiva e integrante; a filosofia, pelo contrário, desenvolvendo nos homens como nos povos a mais perfeita consciência de si, é altamente diferenciante».
12 – «A obra filosófica que não seja um mero produto escolástico terá sempre carácter pessoal, nacional e universal».
13 – «A incompatibilidade do povo português com determinados tipos de pensamento, especialmente com certas doutrinas de estrangeira cultura, não significa inaptidão especulativa; modificado o ambiente espiritual, pela falência dos extremismos das doutrinas incompletas, a filosofia portuguesa poderá surgir, não como contribuinte de uma cultura estranha, mas como reveladora de uma expressão autónoma, com dignidade idêntica à das outras filosofias nacionais».
14 – «Existem estilos de pensamento; e, se «o estilo é o homem», o estilo é também o povo».
15 – «Aproveitados, por uma leitura nova, os mais significativos documentos culturais, confrontados os mais altos modos da vida espiritual, a filosofia portuguesa revela-se em contornos firmes, a que falta dar colorido, movimento, vida e voz».
16 – «A FILOSOFIA realiza-se em sistema».
17 – «A pretensa lógica formal, ditada sucessivamente ao conhecimento vulgar, ao conhecimento científico e ao conhecimento filosófico, tem sido uma extensão abusiva e errónea que conduz fatalmente ao discurso escolástico».
18 – «Quando se diz que o pensamento filosófico é nebuloso, que a sede da sofia está na nuvem, reconhece-se, por via indirecta da caricatura, que a lógica é ascendente e alada, que o seu caminho está entre a terra e o céu».
19 – «A filosofia pressupõe a filologia, o amor do logos que possibilita e caracteriza o sofos».
20 – «Vencer a opacidade do idioma português, dar a expressão dialéctica ao tipo de imaginação e de ideação que nas obras de arte se revela em beleza exuberante, dar transcendência à subjectividade, é – exactamente por virtude da imaginação verbal como pela força do raciocínio – desvendar a existência de uma autêntica filosofia nacional».



"In Memoriam" de José Régio





"In Memoriam" de José Régio PDF Imprimir E-mail
Escrito por Henrique Veiga de Macedo

José RégioA homenagem que se segue, prestada ao "Poeta da Encarnação" (assim o escrevera num dos seus livros Álvaro Ribeiro), teve lugar na Assembleia Nacional, em 29 de Janeiro de 1970. Do seu autor, H. Veiga de Macedo, há que não esquecer quão ligado esteve a uma obra multifacetada e vastíssima em prol do povo português. Assim, por exemplo, enquanto Subsecretário de Estado da Educação Nacional (entre 23 de Julho de 1949 e 8 de Julho de 1955), altura em elaborou e executou o Plano de Educação de Adultos, no qual se integrou a Campanha Nacional de Adultos. Ou ainda, enquanto Ministro das Corporações e da Previdência Social, entre 8 de Julho de 1955 a 4 de Maio de 1961. Em suma: um homem de "alma lavada e fronte erguida", cuja autenticidade se espelha no vivo e intenso testemunho que dera do Poeta das Encruzilhadas de Deus.

Palavras proferidas na sessão da Assembleia Nacional, de 29.1.1970.


Ainda bem que nesta Casa se evoca, com palavras trespassadas de justiça e emoção, a memória de José Régio e se presta eloquente homenagem à sua preclara figura de intelectual de eleição e à sua multímoda obra de poeta, de prosador, de educador.


Este meu sentimento não nasceu agora, andava já no meu coração. Há bem pouco chegou-me às mãos, com as palavras de uma honrosa e generosa dedicatória do autor, o último livro de Álvaro Ribeiro, esse extraordinário pensador que da vida tem feito sacerdócio todo votado à cultura, à «restauração do perene significado da filosofia» e à «demonstração de que existe uma filosofia portuguesa e, mais ainda, de que existe um modo português de filosofar».

Deixai-me ler, de modo a ficarem bem registadas, como merecem, na nossa inteligência e na nossa sensibilidade, estas afirmações da carta que acompanhou esse livro admirável, intitulado precisamente A Literatura de José Régio:A Literatura de José Régio


" Por este mesmo correio, tenho o gosto de oferecer a V.Ex.a um exemplar do meu livro A Literatura de José Régio.


Poeta de alta estirpe intelectual, José Régio foi já comparado a Camões. Morreu, e creio que nenhum funcionário representativo do Estado compareceu ao funeral, aliás religioso. Em vida não foi mais do que um modesto professor liceal; em espírito uma glória da Pátria e um ferveroso servidor de Deus."

Álvaro Ribeiro tem razão, e é sob a impressão forte das suas palavras que ousei pedir licença para interromper a voz autorizada do ilustre Deputado que é a do professor Silva Mendes, velho amigo dos tempos, para mim inesquecíveis, da Campanha de Educação Popular em que pudemos, um e outro, e muitos, muitíssimos mais, trabalhar pela expansão do ensino e pela ascensão cultural do povo português. Não podia de modo algum – agora que estou a retomar contacto com o pensamento e a arte de um dos nossos maiores escritores contemporâneos e me é possível avaliar, uma vez mais, a profundidade do seu espírito aberto e inquieto em busca da verdade –, não podia de modo algum, dizia, deixar de me congratular por ver esta Câmara dar público testemunho da respeitosa veneração e do vivíssimo apreço devidos pelos homens justos, quaisquer que sejam as sua crenças religiosas ou ideias políticas, ao poeta da Encruzilhadas de Deus, ao romancista de A Velha Casa, ao dramaturgo de Benilde ou a Virgem-Mãe, ao crítico, ao ensaísta, ao pedagogo, ao pensador.

Na verdade, «de braços abertos para os seus contemporâneos que se dedicaram a estudos especulativos» – atrevo-me a reproduzir outra afirmação de Álvaro Ribeiro – inscrita no prefácio do livro que o mesmo me ofertou –, na verdade, «de braços abertos para os seus contemporâneos que se dedicaram a estudos especulativos, e de inteligência compreensiva para os seus ensaios mais tímidos ou mais ousados, José Régio mereceu de todos os pensadores sérios a bendição que lhe tem sido recusada por aqueles que se ocupam apenas de literatura. A obra de José Régio anuncia o advento de uma nova arte poética, tal como significou em notável e brunino opúsculo o novel filósofo António Telmo.

Mestre de uma geração ingrata, avançado precursor de uma literatura que ascende para tributos divinos, José Régio contribuiu para o entendimento final de que a palavra vive da sua relação com o pensamento».

Até por isto, numa Assembleia como esta em que a palavra só se legitimará se servir um pensamento e se este servir a vida portuguesa e a dignidade do homem nos seus mais profundos e permanentes anseios e direitos, seria imperdoável não se exaltasse, como está a fazer o Deputado Manuel de Jesus Silva Mendes, o glorioso poeta que foi José Régio. Que foi e que é, pois o seu grito de beleza e de bondade há-de repercutir-se pelos tempos fora, a despertar nos homens de boa vontade aqueles sentimentos puros e aquelas ideias nobres sem as quais não haverá no Mundo nem compreensão, nem paz… nem poesia.

H. Veiga de Macedo





sábado, 20 de junho de 2009

GENTILEZA DA CÉU


ஜॐ♥ஜ______ஜॐ♥ஜ______ஜॐ♥ஜ______ஜॐ♥ஜ

Pétalas no amanhecer de um retrato no tempo

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São as pétalas de um poema que és
Tu que prosa sempre foste em rosa eterna que és
Escrita em luz nos sempres de uma eterna manhã
Na ternura terna de um carinho pelo nascer de cada amanhã

BOA SEMANA
BEIJINHOS DA CÉU
ஜॐ♥ஜ______ஜॐ♥ஜ______ஜॐ♥ஜ______ஜॐ♥ஜ