terça-feira, 4 de agosto de 2009

«AOS SIMPLES» - INTRODUÇAO A «A VELHICE DO PADRE ETERNO» DE GUERRA JUNQUEIRO


AOS SIMPLES


Ó almas que viveis puras, imaculadas
Na torre do luar da graça e da ilusão,
Vós que ainda conservais, intactas, perfumadas,
As rosas para nós há tanto desfolhadas
Na aridez sepulcral do nosso coração;
Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas,
Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas,
Da luz, olhar de Deus, da luz, bênção d'amor,
Que faz rir um nectário ao pé de cada abelha,
E faz cantar um ninho ao pé de cada flor;
Almas, onde resplende, almas, onde se espelha
A candura inocente e a bondade cristã,
Como num céu d'Abril o arco da aliança,
Como n'um lago azul a estrela da manhã;
Almas, urnas de fé, de caridade, e esperança,
Vasos d'oiro contendo aberto um lírio santo,
Um lírio imorredoiro, um lírio alabastrino,
Que os anjos do Senhor vêm orvalhar com pranto,
E a piedade florir com seu clarão divino;
Almas que atravessais o lodo da existência,
Este lodo perverso, iníquo, envenenado,
Levando sobre a fronte o esplendor da inocência,
Calcando sob os pés o dragão do peccado;
Benditas sejais, vós, almas que est'alma adora,
Almas cheias de paz, humildade e alegria,
Para quem a consciência é o sol de toda a hora,
Para quem a virtude é o pão de cada dia!
Sois como a luz que doira as trevas d'um monturo,
Ficando sempre branca a sorrir e a cantar;
E tudo quanto em mim há de belo ou de puro.
- Desde a esmola que eu dou á prece que eu murmuro -
É vosso: fostes vós o meu primeiro altar.
Lá da minha distante e encantadora infância,
D'esse ninho d'amor e saudade sem fim,
Chega-me ainda a vossa angélica fragrância
Como uma harpa eólia a cantar a distância,
Como um véu branco ao longe inda a acenar por mim!
...
...
...
Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; as andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos das montanhas as canções das ceifeiras,
Como a alma d'um justo, ia em triunfo ao céu!...
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo a Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as mágoas...
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
Vão em noite sem lua e n'um barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, immaculado e santo
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de Pai!...
...
...
A minha mãe faltou-me era eu pequenino,
Mas da sua piedade o fulgor diamantino
Ficou sempre abençoando a minha vida inteira,
Como junto d'um leão um sorriso divino,
Como sobre uma forca um ramo d'oliveira!

* * * *

Ó crentes, como vós, no íntimo do peito
Abrigo a mesma crença e guardo o mesmo ideal.
O horizonte é infinito e o olhar humano é estreito:
Creio que Deus é eterno e a alma é imortal.

Toda a alma é clarão e todo o corpo é lama.
Quando a lama apodrece inda o clarão cintila:
Tirai o corpo - e fica uma língua de chama...
Tirai a alma - e resta um fragmento d'argila.

E para onde vai este clarão? Mistério...
Não sei... mas sei que sempre há-de arder e brilhar,
Quer tivesse incendiado o crâneo de Tibério,
Quer tivesse aureolado a fronte de Joana Darc.
Sim, creio que depois do derradeiro sono
Há-de haver uma treva e há-de haver uma luz
Para o vicio que morre óvante sobre um trono,
Para o santo que expira inerme n'uma cruz.

Tenho uma crença firme, uma crença robusta
N'um Deus que há-de guardar por sua própria mão
N'uma jaula de ferro a alma de Lucusta,
N'um relicário d'oiro a alma de Platão.

Mas também acredito, embora isso vos pese,
E me julgueis talvez o maior dos ateus,
Que no universo inteiro há uma só diocese
E uma só catedral com um só bispo--Deus.

E muito embora a vossa igreja se contriste
E a excomunhão papal nos abraze e destrua,
A analise é feroz como uma lança em riste
E a verdade cruel como uma espada nua.

Cultos, religiões, bíblias, dogmas, assombros,
São como a cinza vã que sepultou Pompeia.
Exumemos a fé d'esse montão de escombros,
Desentulhemos Deus d'essa aluvião de areia.

E um dia a humanidade inteira, oceano em calma,
Há-de fazer, na mesma aspiração reunida,
Da razão e da fé os dois olhos da alma,
Da verdade e da crença os dois pólos da vida.

A crença é como o luar que nas trevas flutua;
A razão é do céu o esplêndido farol:
Para a noite da morte é que Deus nos deu lua...
Para o dia da vida é que Deus fez o sol.

* * * *

Mas, ai eu compreendo os martírios secretos
Do pobre camponês, já quasi secular,
Que vê tombar por terra o seu ninho de afectos,
A casa onde nasceu seu pai, e onde os seus netos
Lhe fechariam, morto, o escurecido olhar.
Compreendo o pavor e a lividez tremente
De quem em noite má, caliginosa e fria
Atravessa a montanha à luz d'um facho ardente
E uma rajada vem alucinadamente
Apagar-lho como asa atlética e sombria,
Deixando-o fulminado e quazi sem sentidos
A ouvir o ulular das feras e os bramidos
Do ciclone que explue rouco do sorvedoiro
E se enrosca furioso aos plátanos partidos
A estrangulá-los, como uma gibóia um toiro.

Compreendo a agonia, o desespero insano
Do naufrago na rocha, entre o abismo do oceano,
Vendo rolar, rugir os glaucos vagalhões
Como uma cordilheira hercúlea de montanhas,
Com jaulas collossais de bronze nas entranhas,
E um domador lá dentro a chicotear trovões.
...
...
O vosso facho, o vosso abrigo, o vosso porto,
É um Deus que para nós há muito que está morto,
E que inda imaginais no entretanto imortal.
Vivei e adormecei n'essa crença ilusoria,
Já não podeis transpôr os mil anos da história
Que vão do vosso credo absurdo ao nosso ideal.
Vivei e adormecei n'essa ilusão sagrada,
Fitando até morrer os olhos de Jesus,
Como o efémero vão que dura um quasi nada,
Que nasce de manhã n'um raio d'alvorada,
E expira ao pôr do sol n'outro raio de luz.
Eu bem sei que essa crença ignorante e sincera,
Não é a que ilumina as bandas do Porvir.
Mas vós sois o Passado, e a crença é como a hera
Que sustenta e dá inda um tom de primavera
Aos velhos torreões góticos a cair.
Sim, essa crença é um erro, uma ilusão, é certo;
Mas triste de quem vai pelo areal deserto
Vagabundo, esfaímado e nu como Caim,
Sem nunca ver ao longe os palácios radiantes
D'uma cidade d'oiro e mármore e diamantes
No quimérico azul d'essa amplidão sem fim!
Quem ha-de arrancar pois do seu piedoso engaste
O vosso ingénuo ideal, ó tremulos velhinhos,
Se a quiimera é uma rosa e a existência uma haste,
Rosa cheia d'aroma e haste cheia de espinhos!
Quem vos há-de cortar a flor da vossa esp'rança,
Quem vos há-de apagar a angélica visão,
Se essa luz para vós é como uma criança
Que guia n'uma estrada um cego pela mão!
Quem vos há-de acordar d'esse sonho encantado?!
Quem vos há-de mostrar a evidência cruel?!
Ah! deixemos a ave ao ramo já quebrado,
E deixemos fazer ao enxame doirado
No tronco que está morto o seu favo de mel!
Ó velhos aldeões, exaustos de fadiga,
Que andais de sol a sol na terra a mourejar,
Roubar-vos da vos'alma a vossa crença antiga
Seria como quem roubasse a uma mendiga
As três achas que leva á noite para o lar!
Oh, não! guardai-a bem essa crença d'outrora;
É ela quem vos dá a paz benigna e santa,
Como a paz d'um vergel inundado d'aurora,
Onde o trabalho ri e onde a miséria canta.
Guardai-a sim, guardai! E quando a morte em breve
Vos entre na choupana esquálida e feroz,
A agonia será bem rápida e bem leve,
Porque um anjo de Deus mais alvo do que a neve
Ha-de estender sorrindo as asas sobre vós.
E vós conhecereis em seu olhar materno
Que é o anjo que embalou vosso sono infantil,
E que hoje vem do céu mandado pelo Eterno,
Para sorrir na morte ao vosso branco inverno,
Como sorriu no berço ao vosso claro Abril.

E ao pender-vos gelada a vossa fronte alabastrina
Irá levar a Deus o vosso coração,
Tão manso e virginal, tão novo e tão perfeito,
Que Deus há-de beijá-lo e aquecê-lo no peito,
Como se acaso fosse uma pomba divina,
Que viesse cair-lhe exânime na mão!




domingo, 2 de agosto de 2009

I V - EXCERTO - VILANCETE


IV


EXCERTO

VILANCETE

A la guerra,

Caballeros esforzados;

Pues los ángeles sagrados

A socorro son en tierra.

A la guerra!

Con armas resplandecientes

Vienen del cielo volando,

Dios y hombre apelidando

En socorro de las gentes.

A la guerra, Caballeros esmerados:

Pues los ángeles sagrados

A socorro son en tierra.

A la guerra!

LAUS DEO

I I I - EXCERTO - CANTIGA


I I I

EXCERTO

CANTIGA

Muy graciosa es la doncella:

Como es bella y hermosa!

Digas tú, el marinero,

Que en las naves vivias,

Si la nave ó la vela ó la estrella

Es tan bella.

Digas tú, el caballero,

Que las armas vestias,

Si el caballo ó las armas ó la guerra

Es tan bella.

Digas tú, el pastorcico,

Que el ganadico guardas,

Si el ganado ó los valles ó la sierra

Es tan bella.



I I - EXCERTO - PERESICA


II EXCERTO


PERESICA

Oh clima de nuestro polo!

Un bien olo ,

Planeta de nuestra gloria,

Influencia de vitoria

Por memoria

Nuestro sino laureola.

Ave, stella matutina,

Bella y dina!

Ave, rosa, blanca flor!

Tu pariste el Redentor

Y tu color,

Del parto quedó mas fina.



I - EXCERTO - PERESICA



I

EXCERTO

PERESICA

Erutea, ves alli

Lo que vi,

~

La cerrada flor parida.

Oh vida de nuestra vida,

Guarecida

y remediada por ti!

A ti adoro, Redentor,

Mi señor,

Dios y hombre verdadero

Santo y divino cordero

Prostrimero

Sacrificio mayor!



FOTOS - EDIÇÃO PETRUS - OBRA DE FERNANDO PESSOA





FOTOS - «LIVRO DO DESASSOSSÊGO» - EDIÇÃO PETRUS - ARTE & CULTURA - PORTO