quarta-feira, 30 de setembro de 2009

GENTILEZA DE NINA

GENTILEZA DE MADA


HÁ SOL NA RUA

Há sol na rua

Gosto do sol mas não gosto da rua

Então fico em casa

À espera que o mundo venha

Com suas torres douradas

E as suas cascatas brancas

Com suas vozes de lágrimas

E as canções das pessoas que são alegres

Ou são pagas para cantar

E à noite chega um momento

Em que a rua se transforma noutra coisa

E desaparece sob a plumagem

Da noite cheia de talvez

E dos sonhos dos que estão mortos

Então saio para a rua

Ela estende-se até à madrugada

Um fumo espraia-se muito perto

E eu ando no meio da água seca

Da água áspera da noite fresca

O sol voltará em breve

BORIS VIAN (1920-1959)


GENTILEZA DE NINA



E por falar em saudade onde anda você

Onde andam seus olhos que a gente não vê

Onde anda esse corpo

Que me deixou louco de tanto prazer

E por falar em beleza onde anda a canção

Que se ouvia na noite dos bares de então

Onde a gente ficava,onde a gente se amava

Em total solidão

Hoje eu saio da noite vazia

Numa boemia sem razão de ser

Na rotina dos bares,que apesar dos pesares

Me trazem você

E por falar em paixão, em razão de viver

Você bem que podia me aparecer

Nesses mesmos lugares, na noite, nos bares

Onde anda você.

Vinícius de Moraes

GENTILEZA DE MADA


GENTILEZA DE MADA



GENTILEZA DE MADA

Nominalmente

Este cais onde nominalmente a corda foi deslocada
fazia-me pensar que eu dissera a uma das vozes
que era uma junção. Mas vi partir à mesma distância
quilha, proa e centro. Começou o afastamento.
Aperfeiçoo as imagens que distinguem os lugares.
Água dispersiva, equidistância do sol, ambivalência
das margens. Cruel grito tradicional da gaivota,
no ponto aonde adeja e pesca. Cada sentimento
acumula demasiadas referências, para uma respiração.

Fiama Pais Brandão


GENTILEZA DE NINA


Pedaços de Mim

Que os pedaços de mim, que trago no medo
do tempo, não escureçam o meu viver
e nem ceguem o que sei.
Peço à vida que não me negue a condição de
aprender e tão pouco me deixe morrer
a vontade de errar.
Que os pedaços de mim possam unir na
alegria da noite abrigando a inquietude de
cada gesto reflectida à luz de todo dia.
Que vivam os momentos!
Se não, aquele que sei contido em toda palavra
trocada no peito abraçado.
Que os pedaços de mim busquem a todo instante
cada parte de você, seja entregue no querer ou
simplesmente descoberta em cada desejar.
Indolente na presunção de ser me perco e,
mesmo assim, mergulho no orgulho e me nego nas
verdades encontradas por onde passei.
Que os pedaços de mim tragam, a seu tempo,
toda a carícia do espírito poeta, eternizado a
cada letra desenhada no coração apaixonado.
Que todo passo construído oriente, em si, o
caminho desse horizonte sem fim e, no fim
de tudo, possa recomeçar.
Que os pedaços de mim, espalhados na terra,
floresçam com simplicidade na sabedoria de
crescer.
Que eu, mesmo desencontrado no alvorecer de
minhas causas, deixe por legado os frutos colhidos
no contexto das palavras forjadas na emoção.
Que os pedaços de mim, reunidos no que acredito,
encontrem, na paz de teu abraço, a luz dos meus
sonhos mais saudosos.
E, assim, não mais dividido, viver a vida sem
que pedaço algum seja mais de mim ou de você,
mas um em cada pedaço de nós.

(Mozart)