sábado, 3 de abril de 2010

A ELE QUE FOI CRUCIFICADO


A Ele que foi crucificado

Querido irmão, o meu espírito dirige-se ao teu,
Não te preocupes por muitos dos que pronunciam o teu nome não te compreenderem,
Eu não pronuncio o teu nome mas compreendo-te.
Menciono-te com alegria, camarada, saúdo-te e saúdo os que te
acompanham desde então, e também os que virão amanhã,
Para que juntos transmitamos o mesmo encargo e legado,
Nós, um pequeno grupo de iguais, indiferentes às terras, indiferentes
aos tempos,
Nós que reunimos todos os continentes, todas as castas, nós que
aceitamos todas as teologias,
Compassivos, receptivos, narradores dos homens,
Caminhamos em silêncio entre as polémicas e as afirmações, sem
rejeitar os polemistas nem nada do que afirmam,
Ouvimos os gritos e as vociferações, chegam-nos as disputas, os
ciúmes, as recriminações
Que se atiram peremptoriamente sobre nós e nos rodeiam, camarada,
Mas continuamos desligados e livres a nossa viagem sobre a Terra,
deixando a nossa marca indelével no tempo e nas eras,
Até saturar o tempo e as eras, para que os homens e as mulheres das
futuras gerações possam ser fraternais e amantes como nós.

Walt Whitman

quinta-feira, 18 de março de 2010

GENTILEZA DE FLORBELA FERRÃO


Insinceridades

Quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

GENTILEZA DE MADA






GENTILEZA DE MADA


Desejo que o teu fim de semana seja magnifico
Madalena

Meu Coração

Na terra, uma semente pequenina
Abre, ao sol, em sorrisos de verdura.
E o rubro raio aceso que fulmina
Rasga o seio da nuvem que é ternura.

Ao longo de erna e pálida colina,
Um doce fio de água anda à procura
De alguma rosa angélica e divina,
Abandonada e morta secura.

Mei forte coração também nasceu
Para criar, cantando, um novo céu.
Ninguém lhe entende a mística harmonia!

Lembra remota estrela desmaiada
Que mal se vê, na abóbada azulada,
Mas, para um outro mundo, é grande dia.

Teixeira de Pascoaes

GENTILEZA DE FLORBELA FERRÃO


A Solidão não Constitui Alimento, apenas Jejum

Se não temos aptidão para fazer amigos, remodelemo-nos até consegui-la. A solidão só vale como remédio, como jejum - não constitui alimento; o carácter, como Goethe o viu com tanta clareza, só se forma no tumulto da vida. Se nos tornamos excessivamente introspectivos, estamos na senda da perdição, ainda que o nosso negócio seja a psicologia; olhar com persistência excessiva para dentro de nós mesmos é provocar o desastre do jogador de ténis que conscientemente mede a distância, os ângulos e a força dos golpes, ou como o pianista que pensa nos dedos. Os amigos são necessários, não só porque nos ouvem, como porque se riem para nós; através dos amigos conseguimos um pouco de objectividade, um pouco de modéstia, um pouco de cortesia; com eles também aprendemos as regras da vida, tornando-nos melhores jogadores dos jogos que a compõem.
Se queres ser amado, sê modesto; se queres ser admirado, sê orgulhoso; se queres as duas coisas, usa externamente a modéstia e internamente o orgulho. Mas o próprio orgulho pode ser modesto, raramente se deixando ver, e nunca se deixando ouvir.

Não revelar muita agudeza: os epigramas tornam-se odiosos quando farpeiam fundo a carne; e adoptar como lema o De vivis nil nisi bonum. Nunca provar que um homem está errado; ele não o perdoará nunca. O «nada fazer» é uma das coisas mais preciosas do mundo; frequentemente vale muito o nada fazer, e é sempre uma boa coisa o nada dizer. Ninguém deve mostrar-se ansioso de proclamar a verdade. Aceitando as convenções que a sociedade estabelece, gozamos um pouco de liberdade dentro das suas leis; isso nos permitirá tudo, se o fizermos com elegância e não o andarmos a proclamar.

Will Durant, in "Filosofia da Vida"

GENTILEZA DE FLORBELA FERRÃO


Não És Tu

Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume ,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu... ai!, não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

POEMA DE LUIS REIS - DEDICOU-MO A QUANDO DA MINHA RECEPÇÃO NA SANTA IGREJA ROMANA


Ao Alberto,

Irmão agora ungido pelo Santo, doravante ainda mais temido por todo vil inimigo da Igreja amada,

Filho inquieto da pátria fiel

que ora nos chama a ser futuro,

Amigo do peito,

Pai de minha consciência pátria,

dedico comovido

e com um abraço muito apertado, estes ecos inspirados de minha alma.

17-MAIO-1981


LUIS REIS - ( TEÓLOGO ORTODOXO )



FERNANDO PESSOA



Ao Alberto Castro Ferreira



Poeta,

vero poeta todo ele,

do alto extremo ao extremo baixo, por Orfeu divino musalmente bafejado.

Em privilégio inspirado plo destino sempre foi, que bem ou mal fadado pelo Fado

bem cumpriu.


Mago do verbo luso,

não ditoso pátrio dizente de tão alto fatíloquamente ancorado às distâncias de outrem remotas,

a viver foi ele, em vida, abandonado anacoreta, lá por florestas virginais, por ele só sabidas, repassadas por inauditos sonidos,

fonia arcânica além da morte dos silêncios,

tal nunca ouvidos.

Existido ente em drama único, multívias máscaras,

coabitantes personagens paralelas

que a padecer a vida foram em igual morada,

,

a mesma e so, a veraz e sua :

perdida lhe aparece então,

e de tão almejada, o heróico peito lhe aquece. A sós e sempre a sós sofrendo,

ele era multifário solitário que se vivia pra seu amado Portugal se ir fazendo.


Em ânsias de frémito saturado,

a face ele buscou, de desejado e de encoberto, em sede quente, pra lá de nomes e de máscaras. E na peleja e no recontro,

sarando-se em batalha de vida ou nada, não vencida, não perdida,

a reachou, que a já houvera, oca embora, por não tal suposta ;

oca do muito, demasiado tudo

que em ele houvera e não ficara,

que a ser bastante ainda não chegara para o algum ignoto de todo outro

e também de si.

Dos ramos seus desentroncados,

plo externo verso aquém da seiva sua,

desceu ao estar arbóreo de sem ser no mundo,

directo ao hiperbóreo jeito em seu estar profundo, arborizado por bosques perdidos e jardins esquecidos, nu já porém das dele muitas folhas que caíram,

folhas doridas, outonais e amarelas

que plo potente vendaval, impessoal e indiferente, foram varridas, todas elas, em piedade quase nula, sem pejo algum que além do ver dos olhos

bem se visse.

Cala nele o dito do mistério, flor desfolhada no infante virgem

cujo fruto a esfinge oracular ser se mostrou do Portugal por vir.


Diz,

e o limite lho desdiz

tão afável, inefável paradoxo

da ora nascitura, ora moribunda, palavra incendiada no altar alado da boca do poeta,

que a morrer-nos mais parece sempre estar,

ao desvelar em um lamento lasso do atento rosto o que antes évelante revelado

à ofuscada em espanto vista do vidente, cheia de olhos, universos feitos, estátuas finais do derradeiro

místico mito ressurrecto.

o que vê e escuta, ele prescruta e a dizê-lo todo nunca chega.

A nós diz-nos apenas, e muito é,

que o dito não é o visto em audiência nem todo o visto no segredo

à vidência lá é dito,

sussurrado ao hirto ouvido,

no poema encoberto e sempre oculto do Poeta destarte adulto

pelo verbo dito.