domingo, 18 de julho de 2010

´ CANTO DE MIM MESMO`


O falcão matizado desce velozmente e acusa-me, queixa-se da minha
tagarelice e ociosidade.

Eu também não fui domesticado, eu também não sou traduzível,
Lanço o meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.

O último fulgor do dia permanece para mim,
Arremessa a minha imagem depois de todas, real como elas, sobre os
desertos, sobre as sombras,
Insinua-me no vapor e nas trevas.

Parto como o ar, sacudo os meus cabelos brancos sob o sol que foge,
Espalho a minha carne em remoinhos, espalho-a em desenhadas rendas.

Entrego-me ao húmus para crescer da erva que amo,
Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Todavia dar-te-ei saúde,
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Algures estarei à tua espera.

WALT WHITMAN

quarta-feira, 7 de julho de 2010

GRUPO CESARINY


GRUPO CESARINY

"Em cima, da esquerda para a direita: Lima de Freitas, Mário Henrique Leiria, Eunice Muñoz, Fernando Alves dos Santos e Mário Cesariny de Vasconcelos. No plano inferior, da esquerda para a direita: Arthur do Cruzeiro Seixas, António Barahona e Diogo Caldeira"


´AS ILHAS AFORTUNADAS`


AS ILHAS AFORTUNADAS

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.
E só se meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.
São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar,

«MENSAGEM»

Fernando Pessoa


CARTA

Carta

Lanço as palavras ao papel
como pescador calmo
lança os barcos ao rio.
Só no fundo, no fundo inviolado,
contraio e espalmo
as minhas mãos, mãos de afogado
morrendo à sede.

– Meu amor estou bem –

Quanto te escrevo,
ponho os olhos no teu retrato
pendurado nos ferros da minha cama

para que as palavras tenham o sabor exacto
de quem me ouve,
de quem me fala,
de quem me chama.

– Meu amor estou bem –

Ontem vi a Primavera
numa flor cortada dos jardins.
Hoje, tenho nos ombros uma pedra
e um punhal nos rins.

– Meu amor estou bem –

Se a morte vier, querida amiga,
à minha beira, sem ninguém,
hei-de pedir-lhe que te diga:

– Meu amor estou bem –

LUIS VEIGA LEITÃO

POEMA INÉDITO DE JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES

POEMA INÉDITO DE
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES


MANUAL DE APRENDIZ

saberei qual o uso da estrada clara
se adquirir o hábito de navegar
nos mares dos becos escuros?,
aflição de quem nunca saiu de casa



os caminhos limarão as pedras
e amaciarão por vontade própria
o seu tapete no andar do viandante?,
dúvida de andarilho inexperiente



o amanhã é uma incógnita permanente
para a preguiça dos desprevenidos
pois os sábios aprendem a divisar
no horizonte a sombra das surpresas



o belicoso procura sedento a contenda
e o pacífico contenta-se em construir
a serenidade no pátio das escolhas
onde foi alicerçando cada dia da vida




o amor duradouro apenas se descobre
percorrendo as longas e cruas distâncias
do começo até aos limites da sobrevivência
no cavar fundações com a delicadeza da brisa
sob a protecção única da consciência

A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA


A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA

Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.

Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...

Bem haja a mão que te criou!

Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.

Luis Veiga Leitão