domingo, 3 de outubro de 2010

´Soneto já antigo» - ÁLVARO DE CAMPOS

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,


Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar


a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

´MANHÃ DE CARNAVAL» - ´ORFEU NEGRO`



Manhã de carnaval
(Luís Bonfá e Antônio Maria)


Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás
Das cordas do meu violão
Que só teu amor procurou
Vem uma voz
Falar dos beijos perdidos
Nos lábios teus

Canta o meu coração
Alegria voltou
Tão feliz a manhã
Deste amor

Gaudeamus - old student hymn



El Gaudeamos Igitur ("Alegrémonos pues") es una antigua canción estudiantil alemana, de autor anónimo. En realidad se titula De brevitate vitae ("Sobre la brevedad de la vida"). No obstante lo poco académico de su letra, ha llegado a ser el himno extraoficial de las universidades occidentales, que entonan parte de ella en las grandes ocasiones. A continuación se reproducen algunas estrofas, con su traducción al castellano:

Gaudeamus igitur
iuvenes dum sumus (bis).
Post iucundam iuventutem,
post molestam senectutem
nos habebit humus (bis).



Ubi sunt qui ante nos
in mundo fuere? (bis)
Adeas ad inferos,
transeas ad superos
hos si vis videre (bis).



Vita nostra brevis est,
brevi finietur (bis).
Venit mors velociter,
rapit nos atrociter,
nemini parcetur (bis).



Vivat Academia,
vivant professores! (bis)
Vivat membrum quodlibet,
vivant membra quaelibet,
semper sint in flore (bis).



Vivat et respublica
et qui illam regit, (bis)
vivat nostra civitas,
Moecenatum charitas
quae nos hic protegit (bis).

Alegrémonos, pues,
mientras somos jóvenes,
que después de la alegre juventud
y de la achacosa vejez
nos poseerá la tierra.



Dónde están los que antes de nosotros
en el mundo estuvieron?
Baja a los infiernos,
sube a los cielos
si los quieres ver.



Breve es nuestra vida,
pronto ha de acabarse.
Rauda llega la muerte
y nos arrebata violenta
sin perdonar a nadie.



Viva la Universidad,
vivan los maestros!
Viva cada uno,
vivan todos unidos,
que estén siempre en flor.



Viva el país
y quien lo rige,
viva nuestra ciudad,
y el favor de los mecenas
que aquí nos mantiene.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

«O LIVRO DO DESASSOSSEGO»


“O Livro do Desassossego é para nós, hoje, um manual de sobrevivência. (...) É um livro de sonhos e, completamente, uma apologia do sonhador. Em toda a sua grande diversidade e fragmentação existe, ainda assim, um refrão constante: mais vale viver na imaginação do que no mundo real. O génio do Livro reside, em parte, no que tem de fragmentário, de hesitante e de (recorrendo agora ao léxico de Pessoa) ‘intervalar’. É um livro que não o é, e, como tal, reflecte perfeitamente a alma de quem o escreveu. Pessoa, um pós-modernista ‘avant la lettre’, deixou-nos o livro, ou anti-livro, mais emblemático do final deste século”. As palavras são de Richard Zenith, investigador pessoano responsável pela organização da mais completa edição do Livro do Desassossego, na qual se apresentam algumas alterações textuais e o preenchimento de várias lacunas, que não tinham sido lidas até à data.

´Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos - tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que e a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstracto, para os homens e para as coisas - uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.

Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituírem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!

Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em molhos ora muito ruidosos ora mais que ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito frequentes; esses são musicais. No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação.

Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu destino, alheio, até, ao destino próprio - inconsciência, carambas ao despropósito quando o acaso deita pedras, ecos de vozes incógnitas - salada colectiva da vida.`

BERNARDO SOARES


´WE SHALL OVERCOME`


Década de sessenta ( hoje diz-se anos sessenta ), tanta esperança a da minha geração!
Prisão política, Caxias, Guerra Colonial, mas muita «esperança»!...
Na falta de Pete Seeger, ouço o que queria escutar, o cântico dos estudantes dos EUA, de Berkeley, de Columbia...na voz de bronze de JOAN BAEZ!
«WE SHALL OVERCOME», originalmente um Hino Baptista e que soou, ecoou em WOODSTOCK...
We shall overcome, we shall
overcome
We shall overcome someday
Here in my heart, I do believe
We shall overcome someday
We'll walk hand in hand, we'll walk
hand in hand
We'll walk hand in hand someday
Here in my heart, I do believe
We´ll walk hand in hand someday
We shall be in peace, we shall live
in peace
We shall live in peace someday
Here in my heart, I do believe
We shall live in peace someday
We are not afraid, we are not afraid
We shall overcome someday
Well here in my heart, I do believe
We shall overcome someday
We shall overcome, we shall
overcome
We shall overcome someday
Here in my heart, I do believe
We shall overcome someday
We shall overcome someday







AMIZADE


Amizade

Uma criança muito suja atira pedras a um cão. O cão
não foge. Esquiva-se e vem até junto da criança
para lhe lamber o rosto.

Há, depois, um abraço apertado, de compreensão e
de amizade. E lado a lado, com a mãozinha muito
suja no pescoço felpudo, lá vão, pela rua estreita,
em direcção ao sol.

António Salvado, in "Cicatriz"

A SENSIBILIDADE HUMANIZADA


A Sensibilidade Humanizada

Que lindos olhos de azúl inocente os do pequenito do agiota!
Santo Deus, que entroncamento esta vida!
Tive sempre, feliz ou infelizmente, a sensibilidade humanizada.
E toda a morte me doeu sempre pessoalmente,
Sim, não só pelo mistério de ficar inexpressivo o orgânico,
Mas de maneira directa, cá do coração.

Como o sól doura as casas dos réprobros!
Poderei odiá-los sem desfazer no sol?

Afinal que coisa a pensar com o sentimento distraído
Por causa dos olhos de criança de uma criança ...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

domingo, 18 de julho de 2010

´ CANTO DE MIM MESMO`


O falcão matizado desce velozmente e acusa-me, queixa-se da minha
tagarelice e ociosidade.

Eu também não fui domesticado, eu também não sou traduzível,
Lanço o meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.

O último fulgor do dia permanece para mim,
Arremessa a minha imagem depois de todas, real como elas, sobre os
desertos, sobre as sombras,
Insinua-me no vapor e nas trevas.

Parto como o ar, sacudo os meus cabelos brancos sob o sol que foge,
Espalho a minha carne em remoinhos, espalho-a em desenhadas rendas.

Entrego-me ao húmus para crescer da erva que amo,
Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Todavia dar-te-ei saúde,
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Algures estarei à tua espera.

WALT WHITMAN

quarta-feira, 7 de julho de 2010

GRUPO CESARINY


GRUPO CESARINY

"Em cima, da esquerda para a direita: Lima de Freitas, Mário Henrique Leiria, Eunice Muñoz, Fernando Alves dos Santos e Mário Cesariny de Vasconcelos. No plano inferior, da esquerda para a direita: Arthur do Cruzeiro Seixas, António Barahona e Diogo Caldeira"


´AS ILHAS AFORTUNADAS`


AS ILHAS AFORTUNADAS

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.
E só se meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.
São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar,

«MENSAGEM»

Fernando Pessoa


CARTA

Carta

Lanço as palavras ao papel
como pescador calmo
lança os barcos ao rio.
Só no fundo, no fundo inviolado,
contraio e espalmo
as minhas mãos, mãos de afogado
morrendo à sede.

– Meu amor estou bem –

Quanto te escrevo,
ponho os olhos no teu retrato
pendurado nos ferros da minha cama

para que as palavras tenham o sabor exacto
de quem me ouve,
de quem me fala,
de quem me chama.

– Meu amor estou bem –

Ontem vi a Primavera
numa flor cortada dos jardins.
Hoje, tenho nos ombros uma pedra
e um punhal nos rins.

– Meu amor estou bem –

Se a morte vier, querida amiga,
à minha beira, sem ninguém,
hei-de pedir-lhe que te diga:

– Meu amor estou bem –

LUIS VEIGA LEITÃO

POEMA INÉDITO DE JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES

POEMA INÉDITO DE
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES


MANUAL DE APRENDIZ

saberei qual o uso da estrada clara
se adquirir o hábito de navegar
nos mares dos becos escuros?,
aflição de quem nunca saiu de casa



os caminhos limarão as pedras
e amaciarão por vontade própria
o seu tapete no andar do viandante?,
dúvida de andarilho inexperiente



o amanhã é uma incógnita permanente
para a preguiça dos desprevenidos
pois os sábios aprendem a divisar
no horizonte a sombra das surpresas



o belicoso procura sedento a contenda
e o pacífico contenta-se em construir
a serenidade no pátio das escolhas
onde foi alicerçando cada dia da vida




o amor duradouro apenas se descobre
percorrendo as longas e cruas distâncias
do começo até aos limites da sobrevivência
no cavar fundações com a delicadeza da brisa
sob a protecção única da consciência

A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA


A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA

Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.

Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...

Bem haja a mão que te criou!

Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.

Luis Veiga Leitão

INCOMUNICABILIDADE

INCOMUNICABILIDADE

Caneta, lápis, papel
e lâmina de ponta de lua
um autómato do bolso me tirava...
Depois a minha mão ficou nua
da vestimenta que usava.

Mas deram-me uma tinta preta
(nuvem negra dum fogo posto)
e meteram-me no tinteiro...
Na tinta, afogo as mãos, o rosto,
o meu corpo inteiro:

A força, o canto, a voz que encerra,
ninguém, ninguém pode afogar
- como as raízes da terra
e o fundo do mar.

Luis Veiga Leitão

INCOMUNICABILIDADE

INCOMUNICABILIDADE

Caneta, lápis, papel
e lâmina de ponta de lua
um autómato do bolso me tirava...
Depois a minha mão ficou nua
da vestimenta que usava.

Mas deram-me uma tinta preta
(nuvem negra dum fogo posto)
e meteram-me no tinteiro...
Na tinta, afogo as mãos, o rosto,
o meu corpo inteiro:

A força, o canto, a voz que encerra,
ninguém, ninguém pode afogar
- como as raízes da terra
e o fundo do mar.

Luis Veiga Leitão

sábado, 3 de julho de 2010

´

Liberta em pedra


Livre, liberta em pedra.

Até onde couber

tudo o que é dor maior,

por dentro da harmonia jancente,

aguda, fria, atroz,

de cada dia.

Não importam feições,

curvas de seio e ancas,

pés erectos à luz

e brancas, brancas, brancas,

as mãos.

Importa a liberdade

de não ceder à vida

um segundo sequer.

Ser de pedra por fora

e só por dentro ser.

- Falavas? Não ouvi.

- Beijavas? Não senti.

Morreram? Ah, Morri, morri, morri!

Livre, liberta em pedra,

voltada para a luz

e para o mar azul

e para o mar revolto…

E fugir pela noite,

sem corpo, sem dinheiro,

para ler os meus santos,

e os meus aventureiros,

(para ser dos meus santos,

dos meus aventureiros),

filósofos e nautas,

de tantos nevoeiros.

Entre o peso das salas,

da música concreta,

de espantalhos de deuses,

que fará o Poeta?

(in Liberta em Pedra, 1964)

domingo, 16 de maio de 2010

GENTILEZA DE LETICIA MORALES MARTINEZ - PALPITAR


PALPITAR,
MIS ALAS ABIERTAS AL SOL,
PLACER, PLACER DE LA VIDA,
DULCE CALOR DE TU AMOR.

PALPITAR,
LOS DIAS Y NOCHES MI CORZON,
SOBRE ILUSION DE COLOR,
EL JARDIN LLENO DE AMOR

PALPITAR,
ENTRE SUEÑOS Y EL DESEO,
TU ENCUENTRO Y MI ENCUENTRO,
DESVELO DE ORO,CARICIAS AMOR.

PALPITAR,
LAS LUCES FUGACES DEL CIELO,
DESTELLOS LLENANDO
LA DICHA,
MI VIDA CRECE, BRINCA ETERNIDAD.

PALPITAR,
DOS CORAZONES VIVIENDO ROMANCE,
VIVIENDO EN EL TIEMPO,
PENSAMIENTO ABIERTO, "NUESTRO AMOR".

PALPITAR,
TOCANDO LA TIERRA Y EL VIENTO,
TU ALIENTO Y MI ALIENTO,
PALABRAS INMENSAS DE "AMOR.

FOREVER...LETICIA...!


terça-feira, 4 de maio de 2010

INCOMUNICABILIDADE - LUÍS VEIGA LEITÃO


LUÍS VEIGA LEITÃO



INCOMUNICABILIDADE



Caneta, lápis, papel
e lâmina de ponta de lua
um autómato do bolso me tirava...
Depois a minha mão ficou nua
da vestimenta que usava.

Mas deram-me uma tinta preta
(nuvem negra dum fogo posto)
e meteram-me no tinteiro...
Na tinta, afogo as mãos, o rosto,
o meu corpo inteiro:

A força, o canto, a voz que encerra,
ninguém, ninguém pode afogar
- como as raízes da terra
e o fundo do mar.

A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA




Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.

Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...

Bem haja a mão que te criou!

Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

GENTILEZA DE FLORBELA FERRÃO


Os Instantes Superiores da Alma

Os instantes Superiores da Alma
Acontecem-lhe - na solidão -
Quando o amigo - e a ocasião Terrena
Se retiram para muito longe -

Ou quando - Ela Própria - subiu
A um plano tão alto
Para Reconhecer menos
Do que a sua Omnipotência -

Essa Abolição Mortal
É rara - mas tão bela
Como Aparição - sujeita
A um Ar Absoluto -

Revelação da Eternidade
Aos seus favoritos - bem poucos -
A Gigantesca substância
Da Imortalidade

Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"
Tradução de Nuno Júdice