domingo, 3 de outubro de 2010

«O CASTELO DA MENTE»


O CASTELO DA MENTE

E o fim de toda a nossa exploração
Será chegarmos aonde partimos
E pela primeira vez conhecer o lugar.
Através da porta desconhecida relemdrada
Quando o que resta a conhecer da terra
É aquilo que constituía o começo;
Na nascente do mais longo rio
A voz da cascata escondida
E as crianças na macieira
Despercebidas,porque não procuradas
Mas ouvidas,quase nada ,no silêncio
Entre duas ondas do mar.
T. S. Eliot , LITTLE GIDDING

Outono, folhas...caídas...




ORFEU NEGRO - ´Tristeza`




Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Prá que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A Felicidade, by Antonio Carlos Jobim and Vinicius de Moraes (1959)

´Soneto já antigo» - ÁLVARO DE CAMPOS

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,


Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar


a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

´MANHÃ DE CARNAVAL» - ´ORFEU NEGRO`



Manhã de carnaval
(Luís Bonfá e Antônio Maria)


Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás
Das cordas do meu violão
Que só teu amor procurou
Vem uma voz
Falar dos beijos perdidos
Nos lábios teus

Canta o meu coração
Alegria voltou
Tão feliz a manhã
Deste amor

Gaudeamus - old student hymn



El Gaudeamos Igitur ("Alegrémonos pues") es una antigua canción estudiantil alemana, de autor anónimo. En realidad se titula De brevitate vitae ("Sobre la brevedad de la vida"). No obstante lo poco académico de su letra, ha llegado a ser el himno extraoficial de las universidades occidentales, que entonan parte de ella en las grandes ocasiones. A continuación se reproducen algunas estrofas, con su traducción al castellano:

Gaudeamus igitur
iuvenes dum sumus (bis).
Post iucundam iuventutem,
post molestam senectutem
nos habebit humus (bis).



Ubi sunt qui ante nos
in mundo fuere? (bis)
Adeas ad inferos,
transeas ad superos
hos si vis videre (bis).



Vita nostra brevis est,
brevi finietur (bis).
Venit mors velociter,
rapit nos atrociter,
nemini parcetur (bis).



Vivat Academia,
vivant professores! (bis)
Vivat membrum quodlibet,
vivant membra quaelibet,
semper sint in flore (bis).



Vivat et respublica
et qui illam regit, (bis)
vivat nostra civitas,
Moecenatum charitas
quae nos hic protegit (bis).

Alegrémonos, pues,
mientras somos jóvenes,
que después de la alegre juventud
y de la achacosa vejez
nos poseerá la tierra.



Dónde están los que antes de nosotros
en el mundo estuvieron?
Baja a los infiernos,
sube a los cielos
si los quieres ver.



Breve es nuestra vida,
pronto ha de acabarse.
Rauda llega la muerte
y nos arrebata violenta
sin perdonar a nadie.



Viva la Universidad,
vivan los maestros!
Viva cada uno,
vivan todos unidos,
que estén siempre en flor.



Viva el país
y quien lo rige,
viva nuestra ciudad,
y el favor de los mecenas
que aquí nos mantiene.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

«O LIVRO DO DESASSOSSEGO»


“O Livro do Desassossego é para nós, hoje, um manual de sobrevivência. (...) É um livro de sonhos e, completamente, uma apologia do sonhador. Em toda a sua grande diversidade e fragmentação existe, ainda assim, um refrão constante: mais vale viver na imaginação do que no mundo real. O génio do Livro reside, em parte, no que tem de fragmentário, de hesitante e de (recorrendo agora ao léxico de Pessoa) ‘intervalar’. É um livro que não o é, e, como tal, reflecte perfeitamente a alma de quem o escreveu. Pessoa, um pós-modernista ‘avant la lettre’, deixou-nos o livro, ou anti-livro, mais emblemático do final deste século”. As palavras são de Richard Zenith, investigador pessoano responsável pela organização da mais completa edição do Livro do Desassossego, na qual se apresentam algumas alterações textuais e o preenchimento de várias lacunas, que não tinham sido lidas até à data.

´Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos - tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que e a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstracto, para os homens e para as coisas - uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.

Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituírem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!

Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em molhos ora muito ruidosos ora mais que ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito frequentes; esses são musicais. No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação.

Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu destino, alheio, até, ao destino próprio - inconsciência, carambas ao despropósito quando o acaso deita pedras, ecos de vozes incógnitas - salada colectiva da vida.`

BERNARDO SOARES